Como o grêmio mudou minha vida

Participantes do Encontro Nacional de Grêmios contam como a democracia escolar não muda apenas o ambiente de ensino. Também muda vidas

Além de mecanismo para conquistar direitos nas escolas, o grêmio é o primeiro exercício de cidadania, solidariedade e reflexão na vida de muita gente. Conversamos com algumas das milhares de pessoas que circularam pelo 3º Encontro Nacional de Grêmios e 1º Encontro LGBT da UBES, em Fortaleza, para entender como transformações são possíveis a partir deste instrumento democrático tão simples, mas tão eficaz.

Acompanhe as histórias colhidas na Universidade Federal do Ceará e lembre-se: todo estudante tem direito de se organizar em grêmios desde 1985, graças à lei do grêmio livre. Ainda não tem organização secundarista na sua escola? Leia aqui como formar seu grêmio.

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Tudo que aconteceu no 3º Encontro Nacional de Grêmios e 1º Encontro LGBT da UBES

O movimento estudantil liberta

ENG Camila Silveira

“Onde eu nasci, nós, mulheres, temos duas perspectivas: engravidar e casar. Hoje olho para trás com orgulho, lembrando que eu e colegas nos organizamos na escola e viajamos por 4 dias para um congresso da UBES. Vejo o quanto isso fez nossa vida evoluir.”

         Camila, 32 anos, Fortaleza (CE)

Ao começar sua fala numa mesa sobre gênero, no Encontro LGBT da UBES, a coordenadora de política para mulheres do governo do Ceará deixou de lado as formalidades. “Eu ia fazer uma fala institucional, mas isso aqui fez parte da minha trajetória. Preciso dividir esse lado pessoal com vocês. Costumo brincar que o movimento estudantil liberta”, afirmou Camila Silveira.

Ela explicou que, depois de fazer parte do grêmio de sua escola e viajar para um congresso da UBES no interior de São Paulo, os horizontes se ampliaram para ela e colegas. Principalmente as mulheres, que tinham perspectivas de vida ainda menores: “Casar era a maior ideia de ascensão da nossa vida”.

Tudo começou quando uma cartilha sobre grêmios foi parar em suas mãos. A ideia de reivindicar melhorias caía como uma luva na realidade da Escola de Ensino Fundamental e Médio Plácido Alberado Castelo, em Bom Jardim, onde faltava o elementar: professores e livros.

A antiga chapa Liderança Jovem costuma se reunir até hoje. “Tenho orgulho de ver os caminhos de todos nós”, diz. Depois de formada, Camila Silveira se tornou educadora popular, trabalhou em ONGs e hoje é responsável pelas políticas para mulheres do governo do Estado.

Não tem nada errado com você

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“Quando mudei para o Instituto Federal, conheci o grêmio e várias integrantes que me disseram, pela primeira vez: ‘Tudo bem. Não tem nada errado com você.”

          Lua Victória, 16 anos, Ouro Preto (MG)

Com 15 anos, Lua recorreu ao acompanhamento psiquiátrico da saúde pública, por conta de pensamentos suicidas. A fala dela no 1º Encontro LGBT, durante a mesa Saúde e Segurança, criou um clima de união, empatia e solidariedade em toda a sala. Ela desabafou: “Achava que meus parentes preferiam uma neta morta do que uma neta que gostasse de meninas. Fiz tratamento no serviço público de saúde, mas, apesar da boa vontade, os profissionais não conheciam minha realidade. Digo que o movimento estudantil me salvou”.

O tom é doce e forte ao mesmo tempo. Ela conta que estudava numa escola católica que não se preocupava em resolver seus problemas. Quando mudou para o Instituto Federal da sua cidade, conheceu o grêmio e a compreensão oferecida por integrantes dele, o que ajudou a fortalecer sua identidade, autoestima e consciência social. “As meninas do grêmio me disseram ‘Tudo bem. Tá tudo bem com você’, não tem nada errado”.
Envolvida com a luta estudantil e entidades feministas, ela diz que hoje se sente bem mais em paz: “Já fico tranquila em relação à minha família. Porque agora sei que luto por um mundo melhor para eles também”.

Amadureci no fogo cruzado

ENG chico lopes

“Foi no movimento estudantil que eu amadureci. A gente lia, discutia, participava do debate. O movimento de massa é muito envolvente. As passeatas, as articulações, foram me atraindo para me desenvolver cada vez mais.”

           Francisco, 77 anos, Fortaleza (CE)

Chico Lopes foi duas vezes deputado estadual e está no terceiro mandato como deputado federal. Mas o primeiro “cargo”da sua vida foi como representante de turma, nos anos 1960, enquanto se alfabetizava tardiamente. Ele só entrou na escola aos 12 anos. Dentro do movimento secundarista, passou a militar contra o regime militar.

Segundo o deputado, que participou da mesa sobre a PEC do Fim do Mundo, no 3ª Encontro Nacional de Grêmios, esta etapa foi fundamental para o seu desenvolvimento: “Éramos contra o regime, mas não tínhamos muita consciência das consequências. Amadurecemos no fogo cruzado”.

O deputado participou da criação do Centro dos Estudantes Secundaristas do Ceará, a partir da reunião de vários grêmios. “Fui o segundo vice-presidente para relações internacionais – não falava nem inglês, imagina”, ele ri. “O importante era a movimentação, a articulação”, conta. E orgulha-se: “Demos grande contribuição na resistência. Com o tempo, conseguimos derrubar a ditadura sem um tiro”.

Política é para todo mundo

ENG Mariana Ferreira

“Eu achava que política era só o que o presidente do País fazia”

           Mariana Souza, 18 anos, Belo Horizonte (MG)

Em casa, Mariana ouvia falar de política, assunto de interesse dos familiares. Mas, foi na escola que aprendeu que todo mundo pode participar. E não, isso não aconteceu em sala de aula. Ela cursa o terceiro ano no Centro Federal de Ensino Técnico, em Belo Horizonte, onde há um grêmio historicamente ativo. “Estudava numa unidade mais isolada, não tinha conhecimento de nada. Até que o grêmio começou a fazer atividades lá. Aí comecei a me interessar, entrei para o grêmio, até fui presidenta por um tempo”, explica. E analisa: “Foi muito importante para a minha vida porque comecei a debater coisas que nem imaginava que existiam. Eu achava que política era só o que o presidente do País fazia. Com o grêmio, entendi que política era tudo que acontece no dia a dia”.

Uma forma de inclusão

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“O movimento estudantil me incluiu. Foi também uma forma de ter respeito, na minha escola e na minha comunidade.”

Flávio, 34 anos, Belo Horizonte (MG)

Flávio de Abreu Lourenço, o cantor Renegado, participou do grêmio nas três escolas por onde passou durante o Ensino Médio. E acredita que esse momento lhe deu “a base sobre política, compreensão coletiva e participação dentro da sociedade”. Além disso, boa parte da autoafirmação do garoto do Alto Vera Cruz veio daí: “O movimento estudantil me incluiu. Foi também uma forma de ter respeito, dentro da minha escola, dentro da minha comunidade”.

Ele visitou ocupações de escolas em Minas Gerais, no ano passado, e neste mês compôs uma mesa sobre o assunto, no Encontro Nacional de Grêmios. Saudou: “Fiquei feliz de ver que quem está puxando o movimento são os historicamente excluídos – pretos, mulheres, LGBTs”.

Olhos abertos

ENG PH

Costumo dizer que, antes do grêmio, eu era apenas mais um corpo vagando.”

PH, 21 anos, Sobral (CE)

Luiz do Sol (ou PH, como é conhecido) empolgou a mesa sobre homofobia, no Encontro LGBT da UBES, ao recitar uma poesia que começava assim: “Eu desço o morro pra vir / Eu subo o morro pra voltar / Eu ando as ladeira da favela / Buscando me empoderar”. Ele mantém a página Bicha Poética e faz parte do coletivo LGBT VRRA – Visibilidade, Resistência, Respeito e Amor, em Sobral. Mas conta que nem sempre foi assim: “Faz seis anos que entrei no movimento estudantil. Costumo dizer que, antes disso, eu era só mais um corpo vagando”.

Hoje, ele cursa Educação de Jovens e Adultos no Senai, pois precisou deixar os estudos, por um tempo, para ajudar a mãe. Mas foi na Escola de Ensino Fundamental e Médio Luís Felipe que conheceu a luta: “O pessoal do grêmio realizou uma roda de conversa para explicar o que era, e assim me interessei. Virei primeiro secretário e isso foi muito importante para a minha construção pessoal. O grêmio abriu meus olhos para ter conhecimento do que acontecia ao meu redor”. PH quer ser jornalista.

Por Natália Pesciotta, de Fortaleza