“Não aceitaremos jamais Ensino Médio a distância”, diz presidente da UBES

Para secundaristas, proposta que autoriza 40% do ensino à distância é o fim da educação pública: “Estamos prontos para ocupar tudo de novo”

Em fevereiro do ano passado, o Senado aprovou uma reforma do Ensino Médio autoritária sem discussão, baseada em propagandas de televisão. Agora, na hora de regulamentar a reforma, a proposta é que os estudantes façam até 40% da etapa à distância, o que pode deixar os jovens em casa até duas vezes por semana. “Não aceitamos que nos afastem da escola”, reage Pedro Gorki, presidente da UBES.

A ideia foi discutida no Conselho Nacional de Educação no dia 6 de março e divulgada pelo jornal Folha de S. Paulo nesta terça (20/03). Especialistas ouvidos pelo jornal se preocupam com a piora que a medida pode causar ao ensino público, onde estudam 88% dos secundaristas brasileiros.

Nelson Pretto, por exemplo, que é pesquisador em tecnologia e educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), diz que a medida representa esvaziamento do ensino médio de qualidade e falta de compromisso com investimentos.

“Recursos a distância devem servir como complemento, jamais em substituição de professores e da escola como local de vivência presencial”, repudia Cesar Callegari, membro do Conselho Nacional de Educação.

Por que o governo Temer quer mandar estudantes para casa

A Reforma do Ensino Médio anunciava que os jovens poderiam escolher o que queriam estudar. Isto porque 40% do currículo seria composto pelo campo que cada um preferisse: linguagens, matemática, ciências biológicas, ciências humanas ou ensino técnico profissionalizante.

Na prática, a UBES questionava como isso seria possível, se não havia recursos para melhorar as infraestruturas e 60% das escolas não têm nem mesmo laboratório de ciências, em 34% falta até mesmo biblioteca e 16% não possuem laboratório de informática.

“Fica claro que mandar os estudantes para casa é a solução que encontraram para não resolver a falta de estrutura e de professores nas escolas”, diz Pedro Gorki. Para ele, a reforma é apenas uma desculpa para precarizar ainda mais o ensino público.

A Reforma do Ensino Médio já previa que parte dos chamados “itinerários optativos” (estas matérias de aprofundamento escolhidas por cada um) fosse oferecida à distância. Agora, a resolução proposta para atualizar as Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Médio, autoriza que elas sejam feitas sem nenhuma parte presencial. A resolução também permite o Esnino de Jovens e Adultos (EJA), que já passa por restrições e dificuldades em todos os estados, seja inteiramente feito a distância.

 “Isso é o fim da perspectiva de um ensino público de qualidade. É gravíssimo. Estamos preparados para ocupar nossas escolas mais uma vez se este absurdo for levado adiante”, diz o presidente da UBES.

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