Quase 50 anos depois, estudantes lutam para homenagear Edson Luís

Estudantes e professores sofrem perseguição na escola Presidente Costa e Silva, em Porto Alegre, por querer trocar o nome de ditador pelo do estudante

A morte do estudante Edson Luís, assassinado pela polícia militar ao manifestar sua opinião, faz 49 anos nesta terça-feira (28/3) e o golpe de Estado (1964) completa 53 anos no sábado (1°/4). Mesmo depois de tanto tempo, estudantes brasileiros ainda correm o risco de desconhecer a história da ditadura que assolou país por mais de vinte anos. Isto porque professores que propõe uma reflexão sobre este período têm sido perseguidos em Porto Alegre, na escola com o sugestivo nome de “Presidente Costa e Silva”.

Tudo começou em uma reunião de professores de 2011. Parte da equipe desabafava sobre o incômodo por trabalhar numa escola com o nome de um ditador do regime militar brasileiro (1964-1985). Eles criaram, então, o projeto pedagógico “De Costa Para a Ditadura”. São atividades multidisciplinares para estudar, por meio de filmes, músicas e apresentações, o período em que Costa e Silva comandou o País, entre 1967 e 1969. O projeto acontece todos os anos entre março e abril, época de “aniversário” do golpe militar.

“Trabalhamos a mentira do nome da escola: não existe um presidente Costa e Silva, existe um ditador Costa e Silva. A partir daí, foi tomando corpo a ideia de mudar o nome”, conta o professor de História José Luis Morais, o Zé.

Um dos criadores do projeto, ele preenchia os cabeçalhos com “Escola Estadual de Ensino Médio Edson Luís” e acabou afastado da unidade no começo deste ano. Segundo ele, o diretor informou que “criava muitos problemas” para a gestão escolar. Outros docentes envolvidos tiveram sua carga horária diminuída, como a Silvia Ellers.

Silvia explica a importância do projeto, que continua este ano, apesar das retaliações: “A ideia foi resgatar a memória da comunidade. Antes, quando se perguntava quem era Costa e Silva e por que ele dava nome à escola, poucos ou nenhum aluno sabia. Este conteúdo fica no fim da 8° série e do 3° ano, mas, pelo excesso de conteúdo, quase nenhum professor realmente consegue chegar até aí”.

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“Fica Zé, Fora Mordaça”. Durante greve escolar de 15 de março, comunidade escolar mostra solidariedade a professor afastado (de preto).

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Edson Luís, presente

Nos últimos anos, os estudantes do “Costa”, como a escola costuma ser chamada, se envolveram com a ideia de trocar o nome do colégio estadual. “Aqui em Porto Alegre, tem uma avenida importante que chamava Castelo Branco, outro ditador, e que mudou para avenida da Legalidade e da Democracia. Tendo isso como exemplo, vimos que era possível trocar o da nossa escola também”, explica Gabriel Brocca, de 17 anos, presidente do grêmio escolar. A mudança era uma das reivindicações quando os estudantes ocuparam sua escola, durante mobilizações de 2016.

Segundo a professora Silvia, para isso é preciso primeiro reestruturar o conselho escolar: “Ele está desmantelado e desautorizado pela direção. Nada passa por ele, sequer as prestações de conta da escola”.

E por que Edson Luís foi o novo nome escolhido pelos jovens? Gabriel, que tem praticamente a mesma idade que Edson tinha quando foi assassinado no Rio de Janeiro, em 1968, explica:

“Fizemos uma atividade para pensar nisso. Algumas ideias foram citadas, mas chamou muita atenção a do Edson Luís, porque, além de ser um estudante, ele morreu justamente durante o governo de Costa e Silva. Isso tomou muita força dentro da escola”.

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Presidente do grêmio Edson Luís, Gabriel Brocca faz a mudança simbólica do nome da escola.

O ano que não terminou

Quando foi assassinado, em 28 de março de 1968, Edson Luís participava de uma manifestação no restaurante universitário Calabouço, no Rio de Janeiro. O lugar reunia jovens secundaristas que vinham de outros estados com pouco dinheiro para tentar estudar na capital fluminense. Caso do paraense Edson, filho de uma lavadeira, assim como tantos outros. Eles criaram a Frente Unida dos Estudantes do Calabouço (FUEC) e, durante as refeições, pintavam faixas e planejavam protestos.

Naquela tarde, o motivo era o aumento do preço da comida. Inesperadamente a polícia militar invadiu o salão e começou a agredir os cerca de 300 jovens com cassetetes. Enquanto eles tentavam conter o ataque com paus e pedras, ouviu-se disparos e dois corpos caíram no chão. Benedito Dutra foi para o hospital, onde morreu dias depois, mas Edson acabou alvejado no peito e morto na hora. Um dos únicos retratos dos 17 anos de vida do garoto foi feito quando ele já estava dentro do caixão.*

Se antes disso os críticos ao regime eram torturados apenas em porões sem que a sociedade soubesse, a partir daí a violência dos ditadores ficou escancarada, o que gerou grandes passeatas e movimentos da sociedade. No fim daquele ano, o ditador gaúcho Costa e Silva decretou o fim oficial da democracia no País, com o Ato Inconstitucional número 5 (AI-5). A medida simplesmente mandou os deputados para casa, fechou o Congresso Nacional e proibiu as pessoas de se reunirem em locais públicos, clubes, sindicatos e até em seus próprios lares.

*Os acontecimentos são relatados no livro “1968: O ano que não terminou”, de Zuenir Ventura e “Ubes – Uma rebeldia consequente”, de André Cintra e Raísa Marques

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Questionar significados

Para alguns trabalhadores e estudantes da Escola Presidente Costa e Silva, o nome do lugar não tem nada a ver com isso. “Tem uma questão de laço afetivo e identidade com a escola. Muitos alunos estudam na escola desde o Ensino Fundamental e alguns professores trabalham nela há décadas. Daí vem um pouco da resistência em mudar”, diz o professor Zé.

Ainda assim, ele defende que o papel do educador seja questionar:

“Precisamos desenvolver nos adolescentes o significado das coisas, o questionamento. Isto é educação! Criamos uma discussão legítima dentro da escola”.

Não é este o pensamento dominante na Secretaria da Educação do Rio Grande do Sul, comandada por Luís Antônio Alcoba de Freitas (PDT). Em 1° de dezembro do ano passado, uma representante da 1ª Coordenadoria Regional da Educação (1° CRE) visitou o colégio no bairro Medianera tendo em mãos algumas atividades aplicadas em sala. Ela reprimiu os professores apontando para o preenchimento dos cabeçalhos, ora com “Escola Ditador Costa e Silva”, ora com “Escola Edson Luís”.

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Escola sem partido = Escola sem conhecimento

O relato dos professores presentes nesta reunião com a representante do 1°CRE beira o tragicômico. A representante da Educação teria reclamado sobre “problematizar tanto” o nome da escola, frisado que “ideologias e partidos” não deviam ser misturados com educação e afirmado que “quem vive de passado é museu” (“Dá para acreditar? Dizer isso a um professor de história?”)

Na volta das férias, os envolvidos com o projeto tiveram as cargas horárias reduzidas, quando não totalmente cortada, como no caso do Zé. “Ela chegou a dizer que a escola pública era ‘assim mesmo’. No fundo, trazer conhecimento está fora da proposta atual para a Educação. Querem desmontar a escola pública, transformar em ‘qualquer coisinha’ e usar o dinheiro para outras coisas. Questionamos isso também, por isso somos perseguidos”, acredita o historiador.

Gabriel, presidente do grêmio Edson Luís, comenta a neutralidade exigida pela 1ª CRE: “Não podemos homenagear o que lutou [contra a ditadura], mas o que estava no poder quando ele morreu pode ser lembrado? O discurso do projeto Escola Sem Partido pode até fazer sentido na teoria, mas na prática não permite que a gente fale de algo que envolve a história do Brasil e a sociedade atual. Dizem que ‘escola não é para isso’. Acredito que, muito pelo contrário, é o espaço para debatermos”.

Para o professor José Luis, o capítulo mostra como a ditadura militar ainda não está passada a limpo no Brasil:

“Isto é o ponto-chave. Os caras [em referência aos ditadores] não foram responsabilizados pelos seus atos. Tanto que coisas parecidas acontecem de novo. Por quê? Porque as pessoas não tomaram plena consciência do que significa. Tanto que vivemos outro golpe. Diferente, mas outro golpe. Aqui no Rio Grande do Sul, algumas coisas começam a parecer muito com fascismo. Todos os professores que apoiaram ocupações estão sendo deslocados. Isto é perseguição, como na primeira fase do fascismo”.

Por telefone, durante a conversa com a reportagem, ele vai emendando raciocínios, até chegar o desabafo: “Estou bem preocupado com o rumo das coisas. Estou assustado”.

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