O que 13 Reasons Why tem a ver com você?

Além de tema para ficção, suicídio na adolescência e humilhação na escola são realidades brasileiras. Conheça gente que viveu injustiças e luta por soluções

13 razões

Quando Lua Victória tinha 14 anos, sentia que sua vida era um inferno. Só crescia a sensação de estar inadequada, por ser a única negra e única garota bi da classe, e parecia que os colegas faziam questão de piorar tudo. Com depressão e anorexia, ela começou a ter ideias suicidas. Até que emagreceu 12 quilos, a ponto da mãe notar, e começar a frequentar um psicólogo da saúde pública. Essa história teve um final feliz, mas ela poderia parecer mais a de Hannah Baker (interpretada pela atriz Katherine Lengford), na série “13 Reasons Why” (13 Razões Por Que, em português).

Enredos como o da ficção americana que faz sucesso no Netflix, co-dirigida pela cantora e atriz Selena Gomes, infelizmente se repetem na vida real. O suicídio é a segunda causa mais comum de morte de jovens no mundo todo, atrás só de acidentes de trânsito e mais mortal do que o HIV.

No Brasil, segundo levantamento da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), a quantidade de suicídios de adolescentes aumentou pelo menos 30% entre 1980 e 2013, quando chegou a quase 800 casos.

Bullying esconde outros nomes

“Eu reclamava na diretoria que me chamavam com apelidinhos por causa do meu cabelo e por me considerarem feia, mas diziam que todo mundo passa por isso, que era só eu não pensar e focar nos estudos”, conta Lua. Ela acredita que sua escola, um tradicional colégio católico de Ouro Preto (MG), não quisesse encarar racismo e homofobia como assuntos a serem de fato assumidos e enfrentados.

Mais tarde, ela acabou mudando para o Instituto Federal da cidade, onde acabou conhecendo mais gente parecida com ela dentro do grêmio escolar: “Foram elas que me disseram: ‘Calma, tudo bem. Tá tudo bem com você’. Comecei a ficar mais tranquila. E acabei me engajando também na luta por um mundo mais justo”.

Para Fabíola Loguercio, diretora da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), por trás das zoeiras perigosas costumam estar os problemas da sociedade que se refletem na escola, como racismo, machismo e homofobia.

“Na própria série ‘13 Razões’, por exemplo, a personagem tem sua foto exposta depois de ficar com um garoto. Isto é machismo!”, alerta.

O caso de incompreensão sofrido por Lua é parecido com o de Juliene Silva, secretária-geral da UBES: depois de quatro colegas se unirem para lhe dizerem o quanto era odiada e “feia”, ela passava alguns intervalos trancada no banheiro. A reação da diretora do colégio? Dar uma advertência para que a garota parasse de “chamar a atenção”.

“Só depois soube que sofri bullying e racismo. Hoje, me faz bem construir um espaço de luta para acabar com esse tipo de coisa”, diz ela, fortalecida.

Leia também:
Depoimento: Tinha vontade de sumir todos os dias, por Juliene Silva

juliene

Combater é lei

Na pesquisa do Anuário Nacional de Segurança Pública, a pergunta aos estudantes de 9ª ano foi se eles já haviam se sentido humilhados por intimidações dos colegas. Mais da metade afirmou que sim, pelo menos uma vez.

Em 2015, a presidenta Dilma Roussef sancionou uma lei que determina como papel das escolas a prevenção a casos de intimidação sistemática e discriminação. A lei orienta ainda não simplesmente punir os agressores, mas promover a mudança do comportamento hostil.

Ideia da lei é: “Promover a cidadania, a capacidade empática e o respeito”.

infográfico bullying

Mais conversa

“Na rede pública existe muita dificuldade, mas boa vontade. Carecemos de profissionais especializados, como psicopedagoga para mediar os conflitos. É ali que os problemas da sociedade caem com mais força”, relata o professor de História André Faraco, que dá aulas de Histórias na Zona Leste de São Paulo.

O professor lembra de uma vez em que um grupo de estudantes defensores da causa LGBT espalhou cartazes de conscientização na escola. No dia seguinte, amanheceram pichados com insultos. “Noto que costumam sofrem calados e, quando têm a oportunidade de se expressar, por exemplo, nas minhas aulas, eles tiram o peso das costas. Os estudantes gostam de serem ouvidos.”

Fabíola, diretora da UBES, adverte que a educação pública defendida pela entidade é a que seja capaz de desconstruir preconceitos da sociedade, não que os reafirme. “É por isso que lutamos pela inclusão dos debates de gênero na base curricular e contra o projeto Escola Sem Partido, que pode restringir os debates sobre esses temas nas salas de aula”, termina.