A Caravana de Grêmios da UBES no Maranhão foi um grande aprendizado de vida

Em artigo, diretora da UBES, Fabíola Loguercio*, conta sobre os quase dois meses em que participou da campanha de formação de grêmios no estado maranhense

Enquanto no Brasil, a cada dia, perdemos um pouco da nossa democracia, os maranhenses, que viveram durante 50 anos sem a presença do Estado, lutam por transformações a passos largos na construção de um lugar socialmente mais justo para seu povo. A Caravana de Grêmios da UBES que, em dois meses, percorreu 19 cidades, 31 regionais da educação e mobilizou mais de 10 mil estudantes dialoga exatamente com essa nova forma de pensar a educação: democrática, com grêmio nas escolas e eleições para diretor.

Foram quase 60 dias de surpresas diárias, enfrentando o calor que muitas vezes chegava a 40º C, levando para dentro das salas de aula debates do cotidiano dos e das estudantes, mas que até então nunca havia sido tratado na escola. Enquanto no Congresso Nacional a Lei da Mordaça tenta calar estudantes e professores, dizendo que a escola precisa ser “neutra”, a Caravana no Maranhão mostrou justamente, o contrário: não existe neutralidade. Como já diria Paulo Freire, isso seria a maneira cômoda, talvez, mais hipócrita de esconder o medo de acusar a injustiça, é desta forma que vai perpetuando com um sistema que oprime a juventude, as mulheres, os negros e os LGBT’s.

Por esse motivo, a UBES foi visitar as escolas. Em uma dessas experiências de fundação da organização estudantil no interior do estado – onde a religião evangélica é muito presente nas escolas, muitas vezes violando o princípio da educação laica -, encontramos em uma escola vários cartazes relacionando a culpa do estupro à roupa que a menina usava. Então, realizamos oficinas de gênero, promovendo discussões sobre situações corriqueiras nunca antes colocadas para reflexão, como na frase, “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”.

Construímos essa luta bonita com os estudantes maranhenses, hoje existe grêmio onde antes, por conta de uma cultura de alienação, não havia participação e democracia, onde a comunidade escolar não sabia nem mesmo a diferença entre colegiado, conselho escolar e grêmio estudantil. Os secundaristas passam agora a se mobilizar e reconhece a organização estudantil como parte de um processo que dará fim a uma série de abusos de autoridade no ambiente escolar.

Essa, sem dúvidas, foi uma Caravana da UBES muito simbólica, porque, além de ser a primeira, levou a Lei do Grêmio livro pra sala de aula. Outro fato é acontecer no Maranhão em meio a um cenário nacional de tantos retrocessos. É levar pra dentro da escola debates que nunca antes tinham sido tratados. Mudar a forma de pensar a escola e a educação, ambas como um espaço para formar o pensamento crítico na sociedade.

O Maranhão vive um momento especial, principalmente para a educação e o movimento estudantil, recentemente a comunidade escolar teve uma conquista histórica, onde antes não tinha direito a voz e voto, nesse momento, passa a votar e decidir democraticamente o que acontece na escola. Rompendo com um ciclo de indicações político-partidárias, no qual prevalecia o favoritismo como critério de escolha, sustentando poderosos que contribuíam na alienação e na continuidade de uma oligarquia durante 50 anos. Mudando uma cultura e incentivando a participação nas decisões da cidade, do estado e do próprio país – como nas lutas da UBES contra a MP 746, a PEC 55 e a Lei da Mordaça.

Em meio ao golpe na presidência do país, a Caravana dá ao povo o que lhes é de direito, o poder de decidir, participar e votar, fazendo valer a lei do grêmio livre e incentivando a organização estudantil.

Uma escola livre sem ditador só pode existir com gestões democráticas e participativas, que ultrapasse os muros da escola. É essa uma parte da grande reforma do ensino médio defendida pela UBES, que emancipe, liberte e contribua na construção de uma sociedade com mais igualdade social.

A Caravana plantou muitas sementes no Maranhão, mas a maior delas é a de apresentar a oportunidade de participar do movimento estudantil, viver realmente a escola emancipadora que queremos e que permita aos estudantes sonhar e entrar na universidade ou não, mas que exista a perspectiva de escolha.

Estar no Maranhão, conhecer a realidade de um estado que ainda tem 20% da população vivendo abaixo da linha da miséria com onde há o maior número de escolas de taipas no país foi muito especial. É nesse mesmo Maranhão que conheci um povo que, apesar de todos os pesares, tem sede de mudança, sonho de transformação. Viver o Maranhão e construir a Caravana estudantil foi, sem dúvidas, caminhos para me encantar ainda mais pela cultura e a diversidade que existe em nosso país, e ao mesmo tempo, fez crescer a vontade de mudar o mundo. Encerro a Caravana com o sentimento de ser um pouco mais brasileira!

*Fabíola Loguercio é secundarista e Diretora de Comunicação da UBES.

Para saber mais da Caravana de Grêmios da UBES, acesse aqui.