Julgamento: acampamento recebe resultado com inconformismo

“Mas não desistiremos do nosso país”, dizia secunda no fim da tarde desta quarta (24), a um quilômetro do TRF-4

Desde o amanhecer nas filas para café e banho, não se falava em outra coisa no Acampamento da Democracia, movimento autogestionado que recebeu milhares de pessoas de todo o Brasil no Anfiteatro do Pôr-do-Sol, em Porto Alegre: o julgamento em segunda instância do recurso do ex-presidente Lula, que acontecia a alguns metros dali, no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4).

Até a hora do almoço não parou de chegar visitantes, a pé ou em caravana, para a vigília, ao som de batucadas, gritos e música. Era muita gente pelas barracas, áreas compartilhadas e na marcha na avenida Edvaldo Pereira Paiva, dentro do perímetro urbano isolado pela prefeitura.

Aos 35°C, vários movimentos realizavam suas atividades, como assembleias e rodas de conversa. A UBES promoveu de tarde um rolezinho do Circus, seu Circuito de Cultura Secundarista:

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Além das atividades, quando se via um grupo reunido em um canto, podia ser em torno de duas outras coisas: um chimarrão compartilhado (teve muito chimarrão!) ou um celular com bateria e internet (luxo), para enfim acessar informações sobre o que acontecia dentro do prédio vizinho.

Até que as notícias chegaram. E não eram boas. Quando anunciadas no carro de som, onde lideranças se revezavam, os acontecimentos no tribunal eram recebidos com vaias. A análise do segundo desembargador, Leandro Paulsen, coincidiu com nuvens pretas em Porto Alegre, depois de 8 horas seguidas de sol esturricante. Muitos levantaram acampamento.

Para o último e terceiro voto, sobrou pouca plateia. A maioria, revoltada, não pôde ou não quis ver o fim. Mas já tinha entrado para esta história, que ainda terá outros capítulos, como protagonista.

Caras do Acampamento da Democracia

Luciano Becher, estudante de Santa Maria (RS)

“Este acampamento enorme me emociona. Cada jovem que está aqui tem que saber que é revolucionário e é o futuro do Brasil. Vai ter muito jovem por aí querendo correr para Londres, para os Estados Unidos, mas a gente precisa ter um futuro aqui. E a gente não vai recuar do nosso país.”

 

Laura Paula Chisosttimo (à direita), estudante, de Rolândia (PR)

“Graças à ocupação da minha escola ano passado, conheci a história de luta do movimento estudantil na minha cidade e participei da reativação da entidade secundarista municipal. Nós, que somos pobres, sabemos da importância do Lula e do que ele representa.”

 

Maria Eia Severino, aposentada de Belo Horizonte (BH)

“Me aposentei porque a saúde não acompanhava mais o trabalho de representante comercial, viajando o Brasil todo. Mas esta viagem de 18 horas para Porto Alegre fiz questão de fazer. A gente tem que fazer o possível para derrubar esta perseguição arbitrária.”

 

Jean Fernandes, administrador público, de Nova Iguaçu (RJ)

“O que me trouxe aqui foi o sentimento de revolta. Essa situação demonstra que a mesma direita que aplicou um golpe dois anos atrás continua agindo. A gente tem que ‘meter o louco’.”

Por Natália Pesciotta, de Porto Alegre
Foto destaque: Mídia Ninja