Por que a MP de “deforma” do Ensino Médio ataca a educação e a prática do esporte no Brasil?

Em entrevista ao site da UBES, professor explica porque tirar obrigatoriedade da educação física prejudica a formação da juventude

O Brasil, país que sediou os Jogos Olímpicos em 2016 e a Copa do Mundo em 2014, tem um governo que quer o fim da obrigatoriedade da disciplina de Educação Física nas escolas. É o que propõe a Medida Provisória de “deformação” do Ensino Médio (MP 746), de Michel Temer.

A luta contra a medida, junto com a PEC 55, é um dos principais motes de luta da Primavera Secundarista. O movimento se posiciona contra a proposta que agrava ainda mais o problema do esporte no Brasil ao tornar a disciplina opcional.

Em consulta pública na página do Senado Federal, enquete sobre a opinião dos eleitores mostra que a imensa maioria dos internautas se mostraram contrários à proposta do projeto.

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O ESPORTE E A ESCOLA

Segundo dados de pesquisas realizadas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), em 2014, seis em cada 10 colégios públicos de Ensino fundamental e médio no Brasil não têm quadras poliesportivas, problema que atinge 65,5% dos colégios, segundo o Censo Escolar 2015. Mesmo em escolas que têm quadras, falta estrutura: em 42,6% dessas, não há cobertura e, em dia de calor, o exercício é debaixo de sol. Se chover, não tem aula.

Para a UBES, que há muito tempo discute a construção de uma Nova Escola. Em 2014, durante Seminário de Educação, a entidade aprovou documento base com propostas dos secundaristas para reformulação do ensino médio, que além de formação mais humanista, propõe a inclusão de espaços para a prática do esporte, da cultura, tecnologia nas escolas e melhora na infraestrutura da unidades. No entanto, além de não consultar a UBES e os movimentos sociais, o governo tomou a decisão de retirar a obrigatoriedade da disciplina de educação física, o que reduzirá a identificação do estudante com a escola, ameaçando o principal espaço para prática regular de exercícios, de convívio social e da diversidade que é o ambiente escolar.

Para o presidente do Conselho Regional de Educação Física do Estado de São Paulo, Nelson Leme da Silva Junior, “a Educação Física é a disciplina que propicia a integração entre todos os grupos correntes dentro de uma escola”. Depois de lecionar 22 anos na rede pública, o professor conta sobre os problemas da MP 746 e a retirada da obrigatoriedade da disciplina de educação física. Confira a entrevista:

UBES: Hoje, a escola é o principal espaço para prática regular de exercícios no país. Nesse sentido, qual impacto a Medida Provisória 746 causará no esporte brasileiro?

NELSON LEME: Exatamente, a escola é o principal espaço para a prática regular de exercícios físicos no país, portanto, o entendimento dessa máxima nos parece que não é de todos, especialmente do Governo, neste momento. Como principal espaço com tal finalidade, de prática de exercícios, a exclusão e mesmo a redução das aulas de Educação Física trará sim reflexos no esporte brasileiro. Se imaginarmos que o esporte tem início, meio e fim, a MP 746 acabará com a primeira parte do esporte, que começa na escola com as aulas de Educação Física. Acabará também com o desenvolvimento motor orientado por um Profissional de Educação Física, que estudou para ensinar o aluno nessa fase. São situações muito preocupantes, que serão sentidas no decorrer dos anos.

UBES: Um dos problemas das escolas públicas é a falta de estrutura, muitas não possuem nem mesmo quadra poliesportiva. Sem a obrigatoriedade da disciplina de Educação Física, a tendência é que deixem de investir na infraestrutura e aumentem o sucateamento?

NL: É preciso entender que o sucateamento da escola brasileira não é só em virtude de quadras poliesportiva. Infelizmente, o governo brasileiro não dá o devido valor à educação, pois estão muito mais preocupados com índices. E o índice é uma questão de meio e fim, sendo que o meio do problema seria realmente dotar não só as escolas de professores, mas também de aparelhagem suficiente para a melhoria da qualidade do ensino e, portanto, da qualidade de vida das pessoas, ainda na infância. A falta da quadra poliesportiva faz parte do desleixo com o qual a educação nacional vem sendo tratada.

UBES: A educação física escolar é rica de informações motoras, sensoriais e culturais. Torná-la optativa, como propõe a MP, prejudica a prática de convívio, formação de grupos e respeito à diversidade?

NL: Com certeza, o que propõe a MP irá prejudicar várias ações que advém da Educação Física Escolar, entre elas as aqui citadas: convívio, socialização, círculos de amigos, respeito ao seu corpo e ao corpo do outro, bem como aos espaços alheios.

A Educação Física é a disciplina que propicia a integração entre todos os grupos correntes dentro de uma escola. Ela também proporciona um trabalho interdisciplinar, ou seja, através dela é possível colocar em prática o conteúdo de diversas disciplinas.  É uma disciplina que socializa e humaniza as pessoas, colocando em condição de igualdade todos do núcleo escolar.

UBES: Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar mostram que quase 70% dos secundaristas são sedentários. Neste sentido, como você avalia o fim da obrigatoriedade da disciplina no ensino médio e o impacto na saúde dos jovens?

NL: O impacto é eminente. Entendo que não vamos sentir imediatamente o resultado dessa ação do governo, mas num futuro bem próximo, com certeza o impacto será grande. Se hoje, o resultado da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar é negativo para a saúde do adolescente, em 10 anos qual será? Certamente, os índices almejados não serão alcançados, a não ser que o que se espera é uma saúde populacional ainda mais decadente.

Com a aprovação da referida MP, o governo irá tirar mais uma possibilidade do jovem de se movimentar. O jovem de hoje já é um pouco parado, por conta das possibilidades tecnológicas oferecidas nos tempos modernos. Nesse contexto, a Educação Física Escolar pode proporcionar uma maior movimentação dessas crianças.

Os nossos jovens, sem a prática de exercícios físicos, sofrerão com as doenças do século como: estresse, depressão, obesidade infantil e comorbidades de cada uma delas. 

U: Os professores de Educação Física serão desvalorizados?

NL: Sim, mas, não somente os professores de Educação Física, como todos os professores das disciplinas que estão sendo retiradas do currículo e tornando-se optativas. O caso da Educação Física é especial porque o professor, por sua vez, precisa das aulas para conseguir fechar a sua jornada de trabalho. Afinal, não conseguirá atingir a jornada lecionando apenas na Educação Infantil, ou somente no Ensino Fundamental. Ele precisa das aulas do Ensino Médio para isso. Portanto, no que diz respeito à questão do trabalho esse professor será muito desvalorizado.