Rozana Barroso: Falta de estrutura nas escolas é um empecilho para a volta às aulas

"Para tratar de retorno precisamos urgentemente falar da solução dos problemas graves que enfrenta a educação básica", defende presidenta da UBES em artigo

Segundo o artigo da “Folha Pensa” do dia 8 de setembro, Alemanha, Noruega, Uruguai e França retornaram às aulas sem que isso causasse uma onda de contaminação entre os estudantes. Mas comparar esses países com o Brasil é uma outra história… Por aqui temos problemas de estrutura na maioria das escolas públicas. Afinal, não é novidade que a realidade de escolas municipais e estaduais é de sucateamento. Aqui, a falta de materiais essenciais como sabonete ou papel higiênico é uma realidade.

A desigualdade social não surgiu com a pandemia, mas neste momento, junto com um governo irresponsável, sofremos com o agravamento dela. Isso quer dizer que a realidade difícil da maioria dos estudantes de escolas públicas está pior. O alto índice de desemprego e subemprego leva para dentro de mais casas brasileiras a fome e o desespero para lidar com as contas, que infelizmente, não esperam nossa situação financeira melhorar.

A exclusão digital, assunto que tenho falado muito, é uma violação de direitos escancarada e violenta, que impede há seis meses que milhares de meninas e meninos acessem o que é nosso por direito: a educação. Segundo o Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação, o Brasil tem 4,8 milhões crianças e adolescentes sem internet em casa. Impedidos de plena cidadania, muitos são os que perdem a esperança nos estudos, já que a internet para eles é negada. Problema estrutural que há anos se manifesta nas escolas como salas de informática que não funcionam e computadores quebrados. Aqui no Brasil, a realidade é quadro negro e giz.

“A exclusão digital, assunto que tenho falado muito, é uma violação de direitos escancarada e violenta, que impede há seis meses que milhares de meninas e meninos acessem o que é nosso por direito: a educação.”

São muitas as complexidades neste momento. Por isso, afirmo com toda certeza que, para o movimento estudantil, esse é um dos maiores desafios: a necessidade de retornar, em meio uma onda de banalização da vida. Os pais, que já se encontram fora de casa para o trabalho, se preocupam com seus filhos que precisam ser cuidados por terceiros, aumentando o caso de abusos infantil. Na periferia, a realidade é a rua. As crianças faveladas estão ainda mais vulneráveis à violência policial e ao tráfico.

E, lamentavelmente, estudantes rurais, indígenas e negros, que historicamente são os que mais sofrem, nesse momento, obviamente, continuam nessa estatística.

“Nesse cenário de agravamento, o papel da importância da escola se reforça, principalmente para os estudantes que tinham a merenda escolar como garantia de alimentação diária.”

Acredito que nesse cenário de agravamento, o papel da importância da escola se reforça, principalmente para os estudantes que tinham a merenda escolar como garantia de alimentação diária.

Estar longe da educação é uma violência. Num país onde famílias moram em um cômodo, e o acesso ao saneamento básico não é para todos, claramente a realidade é distante àquela veiculada em comercial do MEC, sobre o ENEM. E, é por isso que necessitamos com urgência de políticas que democratizam o acesso à internet e de combate à desnutrição infantil agravada pelo distanciamento da escola.

Precisamos de uma grande campanha em defesa da vida que disponibilize para a comunidade escolar os materiais de segurança necessários, que garanta que todos os protocolos da Organização Mundial da Saúde sejam seguidos para que nenhuma vida seja colocada em risco.

Para tratar de retorno precisamos urgentemente falar da solução dos problemas graves que enfrenta a educação básica, e, consequentemente, passa pela nossa luta contra a tentativa de redução no orçamento da educação para o ano de 2021 e a vitoriosa aprovação do novo e permanente FUNDEB, mesmo depois da tentativa de desgaste do texto por parte do governo de Bolsonaro. Essa vitória dos estudantes secundaristas nos desenha o caminho da saída. 

Valorização, investimento e responsabilidade com as nossas escolas. Não somos a Alemanha e a Noruega, mas precisamos ser o Brasil que estruture o ambiente escolar para que aconteça o retorno presencial seguro.