Premiadas por invenção: “No nosso país existe ciência e jovens que querem contribuir com a sociedade”

Elas conseguiram medalha de prata em prêmio mundial ao criar bioplástico de casca de laranja, dentro da escola pública, e defendem mais acesso à ciência

O ano de 2020 não está fácil para ninguém, mas as estudantes Bárbara Wingler e Kazue Nishi, de 18 anos, trazem uma notícia inspiradora para quem acredita na ciência, na educação pública e nas novas gerações. Neste mês de setembro elas foram premiadas com medalha de prata na competição internacional de invenções World Invention Competition and Exhibition (WICE), na Malásia, com o bioplástico de casca de laranja que criaram no Centro de Ensino Médio 02 do Gama, Distrito Federal.

O experimento foi desenvolvido no Clube de Ciências Marie Curie, organizado pelo professor Alex Aragão no CEM 02, e deve ser aprimorado para aplicação em canudos e sacolas plásticas, afinal a intenção era criar uma opção mais sustentável para estes objetos. 

“Foi uma honra tremenda mostrar ao povo brasileiro que existe pesquisa, ciência e tecnologia no nosso país e também que existem pessoas, principalmente, existem jovens que querem contribuir mais com a sociedade”, diz Bárbara, que agora cursa o primeiro ano de Biomedicina, após ter aprendido na escola o quanto gosta de pesquisar – antes, como muita gente, ela também achava que ciência era algo feito por homens em laboratórios super equipados. 

Nesta entrevista a estudante conta como descobriu a ciência e por que acredita que qualquer jovem deve ter oportunidade de descobrir também: “Toda escola deveria ter um clube de ciência. É enriquecedor para qualquer aluno, independente da área que quiser seguir”. A cada 10 escolas públicas de ensino médio, apenas 4 têm laboratório de ciências. No CEM 02, a comunidade busca apoio e equipamentos melhores para o laboratório.

Vocês comentam como ciência pode parecer algo distante… Para você já foi assim também?

Bárbara: Sim, no início eu acreditava que a ciência e pesquisa eram desenvolvidas apenas no ensino superior e por estar no ensino médio eu não seria capaz de desenvolver algo com grande relevância, considerando que quase não há incentivo à iniciação científica no ensino básico.



“Só quando entrei para o clube de ciência percebi que a ciência é real, tem estudo, tem pesquisa, tem fatos, tem história e tem o objetivo de promover aos seres humanos uma vida e um mundo melhores.” (Na foto o professor Alex Aragão e as estudantes Bárbara Wingle e Kazue Nishi, do CEM 02 de Gama, DF)

Vocês já tinham pensado em fazer ciência antes de entrar no Clube de Ciência do CEM?

Bárbara: Na verdade, não. Eu não via a ciência como algo verdadeiro, eu acreditava que a ciência era o que o filmes mostravam. Cientistas (em maioria, homens) desenvolvendo projetos surreais e até catastróficos em laboratórios ultra elaborados e equipados. Só quando entrei para o clube de ciência, em 2018, que percebi que não é assim. A ciência não é ficção, não é loucura e não deve buscar algo que prejudique a humanidade. A ciência é real, tem estudo, tem pesquisa, tem fatos, tem história e tem um objetivo quase que universal,  que é promover aos seres humanos uma vida e um mundo melhores.

Como se aproximaram do clube de ciências na escola? Você acha que toda escola deveria ter um projeto assim?

Bárbara: No nosso Clube de Ciências Marie Curie do CEM 02 Gama, DF, é possível entrar ao conversar com o responsável pelo clube, o mestre Alex Aragão. Dependendo, também é possível ser convidado a participar das atividades desenvolvidas pelo clube.


“Toda escola deveria ter um clube de ciência. É enriquecedor para qualquer aluno, independente da área que quiser seguir”

Com toda certeza. Toda escola deveria ter um Clube de ciência, pois ele não somente te permite desenvolver projetos, como também permite conhecer um pouco da vida acadêmica antes de entrar em uma universidade/faculdade. É enriquecedor para qualquer aluno, independente da área que quiser seguir, as diversas possibilidades que ele pode ter ao longo da vida profissional que escolher e o Clube de ciências auxilia nisso. Também é importante para incentivar os jovens a fazer pesquisa, ainda mais em um país onde isso não é algo comum.

O fato do clube de ciências ter o nome de uma mulher cientista é de certa forma um incentivo, já que, como você falou, costumamos visualizar homens ao pensar em ciência?

Bárbara: Exatamente, o nome da Marie Curie foi escolhido não só por ela ter sido uma grande cientista, mas porque ela não foi a única.  Há outras mulheres que contribuíram para os grandes feitos que a humanidade conquistou ao longo dos anos. E ao escolher esse nome, nós decidimos que as pessoas precisavam conhecer essas mulheres, tanto as que já fizeram quanto as que estão fazendo algo pelo mundo.

“Ao escolher o nome de Marie Curie para o clube de ciências, decidimos que as pessoas precisavam conhecer essas mulheres, tanto as que já fizeram quanto as que estão fazendo algo pelo mundo.”

A polonesa Marie Curie (1867-1934), que dá nome ao Clube de Ciências do CEM 02 de Gama (DF)

A verba que vocês tinham arrecadado para ir à entrega do prêmio na Malásia será usada para avançar com os experimentos, pois o evento acabou sendo online… Quais serão as novas etapas?

Bárbara: O dinheiro que arrecadamos ainda não foi utilizado, mas será assim que retornarmos com os experimentos. Que visam aperfeiçoar o biomaterial de uma maneira que ele possa ser utilizado como um canudo, sacola, copo etc..

“Vamos aperfeiçoar o biomaterial de uma maneira que ele possa ser utilizado como um canudo, sacola, copo etc..”

Que significado teve receber essa medalha em meio a essa pandemia, afinal um tempo de dificuldades e desafios, tanto para nós quanto para a ciência?

Foi inacreditável! kkkkkkkk Não imaginamos que ganharíamos um prêmio em meio a tantos outros projetos qualificados e até universitários. Acredito que foi uma honra tremenda mostrar ao povo brasileiro que existe pesquisa, ciência e tecnologia no nosso país e também existe pessoas, principalmente, jovens que querem contribuir mais com a sociedade. Então, para mim, o prêmio foi uma maneira sutil de dizer a todos os pesquisadores e cientistas do Brasil “vocês são capazes e esse prêmio é nosso”.