Por que adiar o Enem? Veja a história destes estudantes

Problemas com internet, falta de acompanhamento pedagógico, poucos recursos… Entenda o que motiva o pedido de secundaristas e universitários

Enquanto o MEC mantém o calendário do Enem no meio da pandemia do coronavírus, os estudantes se mobilizam nas redes para adiar as datas da prova. Os motivos são muitos, mas a desigualdade na preparação do exame, diante de aulas suspensas pela quarentena, colocam muitos sonhos por um fio.

A petição pelo adiamento do Enem, organizada pela UBES e a UNE, já reúne mais de 30 mil assinaturas. Se você ainda não assinou, acesse aqui. Toda essa mobilização dos estudantes chegou no Congresso Nacional, onde deputados e senadores já entraram com uma ação popular e projetos para suspender o calendário.

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, não leva em conta os inúmeros estudantes que enfrentam dificuldades com os estudos durante a quarentena e já afirmou em seu Twitter que “vai ter Enem, sim”.

A realidades dos estudantes não é a mesma do ministro

Uma pesquisa da TIC Domicílios do ano passado, revelou que 30% dos brasileiros não têm acesso à internet e a maioria só acessa pelo celular. Apesar de parecer um número pequeno, muitos estudantes enfrentam problemas de conexão, mesmo com o acesso.

É o caso da Malu Ferreira de 18 anos, que enfrenta problemas com a rede wi-fi em casa e com o sinal do 3G do celular. A região de Suzano (SP), onde ela está passando a quarentena com a família, não favorece o acesso para as tarefas passados pelos professores da E E Caetano de Campos da Aclimação, onde estuda.

“Mudei pra essa escola há poucos meses pra conseguir ter um preparo melhor pro Enem, mas a conjuntura me virou de pernas pro ar. O futuro tá bem incerto”, relata Malu Ferreira de 18 anos.

Na escola da Malu, as atividades passadas pelos professores são das aulas que tiveram antes da quarentena, nenhum conteúdo novo. O secundarista Victor Gabriel de 16 anos, nem isso está tendo. Os alunos da E.E. Rubens Moreira da Rocha em Santo André (SP) não tem nenhuma atividade escolar para fazer durante a quarentena. Mesmo Victor não fazendo o Enem desse ano pra valer, pois está no 2º ano, seu teste na prova sairia prejudicado.

“Eu ia fazer um teste esse ano, pois saí de uma escola que quase não tinha professores. Agora com as datas do Enem no meio da pandemia, vou continuar com problemas para estudar”, afirma Victor Gabriel de 16 anos.

Já o Centro de Ensino Médio Elefante Branco em Brasília (DF), onde estuda Gabriella Helena de 17 anos, ia oferecer um site onde os professores mandassem deveres. Até agora nada e nenhum esclarecimento da diretoria.

“Eu estou no 3º ano e não tenho como estudar para me preparar para o vestibular”, conta Gabriella que também sugere que outros vestibulares também repensem as datas. Como exemplo, ela cita o PAS, processo seletivo da Universidade de Brasília (UnB) que ela também pensava em concorrer.

Secundas dos IFs também sofrem

Até os Institutos Federais, modelos de excelência do ensino técnico público, estão completamente parados. Estudantes como a Luiza Guimarães de 18 anos, que estuda no Instituto Federal do Paraná e o Raffael Reis de 18 anos, que estuda no Instituto Federal do Maranhão, enfrentam dificuldades para estudar em casa.

Luiza conta que está sendo difícil se concentrar com irmãos menores em casa. “Além de estudar pro vestibular, estou fazendo o TCC [comum no último ano dos IFs] e é muito difícil conciliar as duas coisas em casa, longe da minha orientadora”, esclarece a estudante.

“Eu preciso tirar uma boa nota no Enem pra entrar na universidade, mas nessas circunstâncias de pandemia, vai ser quase impossível”, diz Luiza Guimarães de 18 anos.

Raffael Reis conta que no IFMA até se falava em EAD no início da quarentena, mas foi notável a impossibilidade de manter as aulas nessa modalidade, pois muitos alunos não teriam como acompanhar. Para ele, o ano do Enem por si só já um desafio, pois estudou em escola pública a vida inteira e não tem condições de pagar cursinho.

“Particularmente me sinto a ver navios, sem perspectivas”, conta Raffael Reis de 18 anos.

“Quando o MEC divulgou o edital do enem foi um choque!”, enfatiza Raffael que torce para que a mobilização dos estudantes nas redes sociais e as ações de parlamentares no Congresso consigam impedir que a prova seja realizada no meio de uma pandemia mundial.

Sem o adiamento do Enem, não há perspectivas para o estudante que completa: “Prestar o exame com os três anos completos já seria muito difícil, agora me pergunto se tenho alguma chance tendo cursado menos de 1 mês do último ano do ensino médio”.