Não existe racismo no Brasil? UBES denuncia que estudantes negros são mais prejudicados

Para estudantes, falta de ações e negação do governo federal atrapalham superação das diferenças históricas, agora mais intensas com a pandemia

Após o assassinato de um homem negro por seguranças de um supermercado em Porto Alegre, às vésperas do Dia da Consciência Negra, o presidente Jair Bolsonaro e seu vice Hamilton Mourão deram declarações negando o racismo histórico da sociedade brasileira. Para os estudantes secundaristas, que conhecem este problema de perto, a negação dificulta ainda mais projetos e políticas de superação das diferenças.

Projeto colonizador

“Os estudantes que mais sofrem são os pretos, uma consequência dura da história que colocou nosso povo sempre como inferior e com menos acesso. O governo Bolsonaro representa a continuação desse projeto iniciado em ritmo colonizador, eurocêntrico e que culmina com os interesses dos ricos, brancos”, denuncia Iã Silva Alves, diretor de Combate ao Racismo da UBES.

Estudantes secundaristas participaram de manifestações antirracistas em várias capitais brasileiras neste 20 de novembro. 

Juventude protesta em Palmas (TO), 20 de novembro

Dados

Diversos recortes raciais da realidade em 2020, pesquisados pelo Instituto Locomotiva e Central Única das Favelas (CUFA) em junho, mostram que os efeitos da pandemia tem afetado mais a população negra: enquanto apenas 8% das pessoas brancas matriculadas no ensino médio não acompanham as aulas, este percentual é de 26% entre pessoas negras.

A exclusão digital também recai mais sobre a população negra: 5 a cada 10 pessoas brancas com acesso à internet usam computador, enquanto esse percentual é de apenas 3 a cada 10 pessoas negras. Os efeitos econômicos também são sentidos mais por pessoas de famílias negras: 73% das pessoas negras tiveram diminuição na renda da família, índice que cai para 60% entre pessoas brancas.

Ações

“Estamos com risco de perder uma geração de meninos e meninas que podem contribuir com a o desenvolvimento social, da tecnologia, da economia, com soluções para o país”, preocupa-se Rozana Barroso, presidenta da UBES. 

Para ela, são urgentes ações para combater a evasão escolar, a exclusão digital, a insegurança alimentar e a queda na renda das famílias, questões ainda sem respostas pelo governo federal. Neste sentido, a UBES criou as campanhas Estudo Pra Geral, Merenda Para Todos, defende a regulamentação do Fundeb e o Projeto de Lei Conectividade Já.

“Se a escola e a educação não chegarem nas periferias, a violência chegará primeiro”, resume Rozana, que estuda para ser a primeira da sua família em uma universidade federal.

Racismo estrutural

Racismo estrutural é o conjunto de mecanismos, às vezes invisíveis, que impedem pessoas negras de acessarem os mesmos espaços que as pessoas brancas. “Uma fala como essa [de que não há racismo no Brasil] vai contra todas as conquistas democráticas do Estado nacional brasileiro de reconhecer que o país é pluriétnico, pluricultural e que tem de enfrentar o racismo, sim, que é muito forte na sociedade”, afirma a professora de sociologia da UFF (Universidade Federal Fluminense) Flavia Rios.