A luta das estudantes negras muito além do #JulhoDasPretas e #VidasNegrasImportam

De geração em geração, mulheres negras lutam para terem sua identidade reconhecida e respeitada dentro da escola

#JulhoDasPretas acabou, #VidasNegrasImportam acalmou… E a luta ainda segue! Embora cada vez mais evidente, ela vem de muitas gerações atrás. E continua para as próximas. É o que acreditam estudantes de diferentes gestões da UBES.

Para Rozana Barroso, presidenta da UBES hoje e estudante de pré-vestibular, as redes sociais neste momento ajudam a impulsionar causas antigas, num momento de enfrentamentos importantes: “A gente precisa estar cada vez mais organizado pra disputar ideias na internet, organizar mais estudantes, conquistar mais direitos e barrar ataques”.

Os movimentos atuais são ótimos para ampliar os debates, analisa Adriele Andrade, diretora LGBT da UBES. “O apogeu de muitos movimentos antifascistas durante a pandemia leva mais gente a se questionar, a indagar a realidade”, acredita a secunda de 19 anos. “Isso nos leva a pensar em soluções com cada vez mais gente.”

Mudanças visíveis

“Pra mim, a diferença mais evidente ao olhar as meninas de hoje no ensino médio é a coisa da estética”, comenta Jéssica Lawane, que compôs a UBES em 2015 e hoje estuda Teoria, Crítica e História da Arte na Universidade de Brasília. Ela lembra que no ensino fundamental passava metade do recreio com as amigas no banheiro, tentando “diminuir o volume” do cabelo. E compara: “Vejo que hoje elas têm mais compreensão de quem são e como são, mais diversidade para se inspirar”.


Jéssica Lawane: “Vejo que hoje elas têm mais compreensão de quem são e como são, mais diversidade para se inspirar”

É algo que está em evolução. Pâmela Layla, diretora de Mulheres da UBES, teve muito medo ao assumir seu cabelo três anos atrás, na oitava série: “Sentia um grande medo de ir com o cabelo solto para a escola. Frequentemente ofendiam quem tinha cabelos como o meu”. 

Só que agora, aos 17 anos, já reconhece sua identidade, participa de um núcleo de estudos de negritude no Instituto Federal do Ceará (IFCE) e já deu oficina de turbante para as mais novas (é ela na foto de abertura desta matéria).

Pâmela Layla: “Hoje, consigo ver mais meninas negras empoderadas. Acredito que seja resultado das pautas que levantamos diariamente. Mas ainda é preciso melhorar bastante.”

Se descobrir negra

Mel Gomes foi secundarista e dirigiu a UBES em 2011, quase 10 anos atrás. Lutava pelas cotas e pelo Sisu, como forma de democratizar o acesso à universidade. E explica que, quando estava na escola, era muito comum as pessoas nem se verem como negras. “Quase todo mundo se achava ‘pardo’, não tinha essa construção da identidade”, lembra ela, que só passou a pensar mais sobre isso na universidade.


Mel Gomes: “A gente não falava na escola sobre o que é ser negro, o que é ser mulher ou o que é ser LGBT.”

O silenciamento era total, segundo Mel: “A gente não falava na escola sobre o que é ser negro, o que é ser mulher ou o que é ser LGBT. A gente sabia que tinha alguma coisa errada, todo mundo se olhava entre si, mas o normal era não falar sobre”. 

Hoje em dia, estudantes já começam a compartilhar alguns debates, aos poucos. Com o acesso ao conhecimento, vem o protagonismo. E a luta, seja na política, seja no dia a dia, para que os temas tenham cada vez mais espaço na escola.

Liriel Maia, diretora de Combate ao Racismo da UBES:
“Foi muito importante ter suporte no movimento enquanto o mundo dizia que eu ia ficar feia, que eu não era preta, que eu era ‘afrobege’, ‘cor-de-burro-quando-foge.”

Ao fazer parte do movimento estudantil, Liriel Maia, de 18 anos, foi apresentada ao livro “O que é negritude”, de Zilá Bernt, que mudou completamente seu entendimento sobre si. Atual diretora de Combate ao Racismo da UBES, ela passou pela transição capilar, “uma transição de tudo”, segundo ela.

Adriele, 19 anos, diretora da UBES, participou de um projeto sobre cultura negra na sua escola estadual em Iguassu (PE), que ampliou muito seus horizontes.

“Eu tinha indagações sobre ser negra ou não, uma professora de filosofia me ajudou bastante. Depois, com o grêmio, pudemos ampliar muito esses debates para a galera.”

Caminhos pela frente

Para a direção da UBES, apesar das mudanças, ainda falta muito para uma escola antirracista e antimachista. Parar de tratar machismo e racismo como “bullying”, por exemplo. Criar mais espaços de debates e protagonismo. Ter mais pessoas negras nos quadros. Cumprir a lei de ensino da história e cultura afrobrasileira. Barrar de vez a “Lei da Mordaça”, erroneamente chamada de “Escola Sem Partido”.

Leia também: Como criar escolas que empoderam em vez de oprimir

Sem dúvida o conhecimento e o acesso à informação atual, conquistados com a luta de muitas gerações, já são um passo. Mel, da geração da UBES de 2011, avalia:

“Acho que o avanço nesses debates faz com que hoje uma criança negra reconheça que é negra, lute pelo seu espaço. Mais cedo ela se torna consciente de que o racismo e o machismo não podem ser o normal para a vida dela”.