Sonia Guajajara: “Nós queremos integração é pela universidade”

Presente no 4º ENG, liderança indígena respondeu a propostas do atual governo e apontou educação como um dos caminhos para mudanças

Para uma das principais lideranças indígenas do Brasil, é falsa a preocupação demonstrada pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) e seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em  “integrar” indígenas à sociedade. O governo tem defendido a agricultura e mineração em território indígena como forma de “integração”.

“Nós já somos integrados, estamos nas universidades, na política. Mas querem ceder o território indígena ao agronegócio”, disparou Sonia Guajajara na entrevista abaixo, pouco antes de participar de uma mesa no maior encontro estudantil da América Latina.

No dia 7 de fevereiro ela compôs, na Universidade Federal da Bahia (UFBA), a mesa “Desafios para o desenvolvimento do Brasil”, atividade do 4º Encontro Nacional de Grêmios (ENG), 15º Conselho de Entidades de Base (CONEB) e 8º Encontro Nacional de Pós-Graduandos (EPG).

Primeira indígena em uma chapa presidencial, ela criticou ainda o desmonte da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI), uma das primeiras ações do novo governo: “É o fim do reconhecimento da diversidade”.

Sônia fala a estudantes durante a mesa “Desafios para o desenvolvimento do Brasil”, na UFBA

O presidente da República afirma que os indígenas querem e devem ser incorporados às cidades. Qual a importância de se manterem em suas terras?

Sonia Guajajara: É importante para o Brasil e para nós. Primeiro é a nossa vida como indígena. Depois, falar sobre nossas terras não é só falar em garantir direitos, mas também em desafios para a existência de todos nós. Elas garantem o ar e a água que ainda temos.

Quando dizem “tem de se integrar” não é porque são preocupados com os indígenas. Querem tirar os indígenas de seus territórios para entregar estas terras para exploração. Para ceder este território ao agronegócio, o que é parte de seu acordo político.  

Nós já somos integrados à sociedade, temos muitos indígenas em universidades. A gente trabalha, está em conselhos, na política. Queremos participar, sim, mas com a garantia da nossa casa, do nosso território.

Quando dizem “tem de se integrar” não é porque são preocupados com os indígenas

O que você espera da nova gestão do Ministério da Educação para o ensino em aldeias indígenas e quilombolas?

Sonia: É um cenário muito preocupante. Pois é o fim do reconhecimento da diversidade, é o fim da valorização dos povos indígenas, quilombolas. Acabar com a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI) é declarar um total descompromisso com toda essa população.

Os ataques às terras indígenas só crescem em todo o país, ainda mais com tanto discurso de ódio ganhando força. Como a educação pode auxiliar no processo de desconstrução da intolerância?

Sônia: A educação já vem com defasagem neste papel. Pois não se consegue discutir a obrigatoriedade da disciplina afroindígena nas universidades. É uma disciplina que não acontece, não existe na prática [apesar da Lei 11.645, que determina ensino de história e cultura indígena e africana no ensino básico].

As crianças precisam crescer entendendo que tem indígenas no Brasil, que somos povos, não somos índios simplesmente. A educação é o espaço para essa conscientização e mudança.

Bolsonaro foi democraticamente eleito. Quais suas perspectivas agora?

Sônia:  Nem todo mundo que votou nele é fascista. Muitos se apegaram a uma desilusão e descrença na nossa política. É este sentimento de vingança que precisamos reverter. Precisamos falar de temas caros para todos, como jovens na universidade, população LGBT atacada, meio ambiente.