#IFORAASSÉDIO: Entenda o movimento que une meninas em SC

Após casos de assédio de professores, mais de 15 campi se conectam, vestem preto e se mobilizam: “Hoje temos mais voz para dizer não”

Preto foi a cor escolhida por secundaristas catarinenses para se mobilizar contra o assédio dentro de instituições de ensino no estado, principalmente os institutos federais (IFs). Na última quarta (27/3) o movimento se repetiu em mais de 15 instituições de ensino, com atos, debates, cartazes e o uso da hashtag #IFORAASSÉDIO nas redes sociais.

Graças às redes sociais e ao despertar das estudantes, foi possível a união de tantas cidades pela mesma causa. Garotas de diferentes unidades se conectaram por WhatsApp e perceberam que a frequência de casos de assédio dentro do ambiente escolar era mais comum do que imaginavam.

Professores assediadores

Tudo começou com o inconformismo de estudantes do campi de Araquari do Instituto Federal Catarinense (IFC), diante da demora de dois processos administrativos para lidar com professores acusados de assédio. Elas procuraram garotas de outros campi, tanto dos Institutos Federais Catarinenses (IFCs) quanto dos Institutos Federais de Santa Catarina (IFSCs), começaram a se organizar e trocar experiências via WhatsApp.

Estudantes do IFC Araquari denunciam lentidão dos processos contra professores assediadores

Descobriram que além dos casos do seu instituto, um professor do IFSC Chapecó, por exemplo, foi exonerado em 2018, mas acabou ganhando um processo administrativo. “Foi uma revolta porque ele voltou a dar aula para nós, a mesma turma onde o assédio acontecia, onde ele tocava na perna das meninas”, explica Ketheryn Fistarol, de 18 anos.

A direção conseguiu a transferência deste professor para outra unidade, mas a repetição de casos assim chama atenção dos estudantes de preto.

“Além de se preocupar com as matérias e as dificuldades em relação ao acesso à educação, as estudantes têm que conviver com o medo e assédio por parte de colegas e professores”

“A desigualdade de gênero, que é estruturante na sociedade patriarcal, se reflete no ambiente acadêmico”, denuncia a União Catarinense dos Estudantes Secundaristas (UCES), em nota. “Além de se preocupar com as matérias e as dificuldades em relação ao acesso à educação, as estudantes têm que conviver com o medo e assédio por parte de colegas e professores”, repudia a entidade.

Mais voz para dizer não

“A gente tem uma crescente de casos de assédio e é por isso que fizemos aquele manifesto. Mesmo depois do ato, a gente vem falando deste assunto todos os dias”, conta orgulhosa Ketheryn, estudante de Programação no IFC Chapecó. Ela compõe o grêmio Edson Luís no seu instituto, a União Catarinense dos Estudantes Secundaristas (UCES) e aparece na foto abaixo atrás do cartaz rosa: “A instituição é pública, nosso corpo não”.

Ketheryn, do IFC Chapecó (atrás do cartaz rosa):
“Desde o crescimento do movimento feminista nos anos 1960, 70, as mulheres estão se impondo mais, exigindo respeito da sociedade. Por isso hoje temos mais voz para dizer não”

A articulação contra assédio tem se intensificado nas escolas brasileiras. No ano passado, secundaristas cariocas se uniram de vermelho contra os constrangimentos e padrões machistas nas escolas, muitas vezes camuflados como “brincadeiras” ou “elogios”.


Movimento “Assédio é hábito”, no Rio de Janeiro, em agosto de 2018

Não é novidade o comportamento de professores, funcionários ou colegas ao assediar estudantes no ambiente escolar. A novidade são os movimentos de meninas em protesto contra esta cultura.

Aos 18 anos, Ketheryn se informa sobre feminismo pela internet e acredita que a luta de outras gerações foi essencial para que a sua compreenda o problema e se posicione. “Desde o crescimento do movimento feminista nos anos 1960, 70, as mulheres estão se impondo mais, exigindo respeito da sociedade. Por isso hoje temos mais voz para dizer não”, explica.

Enquanto lamenta ainda viver em “uma sociedade muito machista”, ela comemora a possibilidade de se unir com outras garotas para denunciar o problema: “Com internet, rede social, fica mais fácil fazer um movimento como este, de mulheres que nunca se conheceram, mas se reuniram usando preto e sensibilizando suas escolas”.

Futura programadora, Ketheryn reflete: “Agradeço muito pela oportunidade que tenho de conhecer o feminismo e de me relacionar com outras feministas, ter uma proximidade por meio das redes sociais. Estamos crescendo em uma sociedade que está começando a se desconstruir”.



Entre as escolas que aderiram ao movimento, estão: IFSC Campus Chapecó, Caçador, Xanxerê, Canoinhas, Joinville, Itajaí, Jaraguá do Sul, IFC Campus Araquari, Ibirama, Sombrio, Luzerna, São Bento do Sul, Blumenau, Santa Rosa do Sul e Camboriú, também o E.E.B. Prof. Nelson Horostecki e o E.E.B. Higino Pio

A UBES defende a escola como espaço para desconstrução do machismo, racismo e LGBTfobia presentes na sociedade, seja nos conteúdos e materiais didáticos, seja por meio do debate, participação e protagonismo do movimento estudantil.