Feminismo em pauta, entrevista com Eleonora Menicucci

Abertura do 5º EME contou com a presença da ex-ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres

Nesta quinta-feira, 17, na Faculdade Zumbi dos Palmares, em SP, aconteceu a abertura do 5º Encontro de Mulheres Estudantes da UBES (EME). A socióloga e ex-ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres do governo Dilma Rousseff, Eleonora Menicucci de Oliveira, esteve presente para a mesa de abertura do evento que teve como tema “Revolta: mulheres contra o autoritarismo, secundas por uma escola sem machismo”.

À UBES, a também ex-militante, falou sobre os desafios da luta feminista.

Como você vê o fato da Secretaria de Política para Mulheres ter perdido o status de Ministério e hoje estar vinculada à Ministra Damares Alves?

Para falar da Secretaria de Políticas para Mulheres não dá pra não falar deste governo que foi eleito com base em mentiras. A questão da Secretaria para Mulheres está dentro deste contexto, não se pode pensá-la apartada disso de forma nenhuma, porque a política do governo define como alvos principais as mulheres, a população negra, LGBTQ+, indígena e trabalhadora. E entre as mulheres, prioritariamente as negras. Então, a Damares é uma representante oficial da proposta desse governo. Aliás, ela é muito inteligente, não vamos menosprezá-la, ela é um quadro da direita, evangélica, reformista, reacionária, conservadora, sexista e machista. É sob a titularidade dela que as “políticas para mulheres” estão, ou seja, não estão, porque ela acabou com todas as políticas para as mulheres e com as políticas de direitos humanos.

Como o desmonte de políticas públicas impacta na política para mulheres?

Existem dois focos, o da implementação doa a quem doer das políticas mais cruéis neoliberais e o outro da política fundamentalista, conservadora, completamente de perda de direitos trabalhistas, individuais e sociais que nós tínhamos conquistado. Dou uma assessoria para mulheres do bairro Heliópolis, nós começamos um curso que se chama “Escola Feliz”, elas querem se subsidiar do que é o feminismo. Elas já lutam, o que elas querem é se fortalecer como sujeito feminista. As mulheres brasileiras estão se organizando no campo, na floresta, nas águas, nas cidades, nas escolas. São negras, são brancas, são gordas, são magras, são indígenas. Nós acabamos de ter duas marchas maravilhosas das mulheres indígenas e das Margaridas, eu estava com muito receio porque este governo institui o medo. Esse ódio que está instalado é pra impedir que as pessoas saiam às ruas.

Você passou pelo terrível momento da Ditadura, foi presa e torturada. Diante de nosso atual cenário político, qual seu sentimento e maior preocupação, principalmente para as meninas e mulheres?

O medo na Ditadura era de morrer, ser assassinada, ser presa e torturada. Aquela geração não tinha alternativa, ou entrava na luta ou não entrava e a grande maioria entrou, e entraram de várias formas. Hoje, o medo é maior porque o inimigo não está tão explícito. Temos uma censura que não está explícita, mas nós temos censura. As forças armadas tinham um projeto que era nacionalista. Hoje, qual é o projeto? Não tem. É entregar o Brasil. Nós, mulheres, somos as que mais sofremos porque estamos nos empregos mais precarizados, mais intermitentes. Segundo o Atlas da Violência, o feminicídio aumentou em 47,8% dentro de casa com armas de fogo, em 9 meses, e pra mim, é muito fácil a resposta: o Bolsonaro está incentivando o porte das armas, isso significa “é permitido matar”. É uma barbaridade!

Quais as principais diferenças entre o atual movimento de jovens feministas com o período em que você foi militante?

Durante a Ditadura nós não sabíamos que éramos feministas, diferentemente das mulheres norte-americanas e europeias daquela época. O conceito só passou a fazer parte do movimento de mulheres brasileiras em 1978, mas nós éramos feministas porque rompemos com as famílias, com os anos dourados da juventude, nós pusemos calça comprida, cortamos o cabelo curto, usamos camisa e fomos à luta. Mulheres foram assassinadas, mortas, desaparecidas, incineradas, fomos torturadíssimas. Quando saí da cadeia, em 1974, saí assumidamente feminista e fui buscar grupos de mulheres para discutir. Assim como a conceitualização tardia do feminismo, foi com o feminicídio que já existia desde a colonização, eu tive a honra de ter sido ministra quando a Lei 3.404, de 2015, foi aprovada no Congresso e assinada pela presidenta Dilma.

De certa forma, o discurso imposto pelo governo marginaliza as militantes feministas. Qual o intuito dessa postura?

O neoliberalismo constrói um modelo de sociedade onde a mulher só interessa se capturada pelo sistema neoliberal. As jovens feministas representam o futuro da mulher, vocês estão dizendo “nós não aceitamos isso!”. Vocês tiveram a oportunidade de passar por dois governos de conquista de direitos, os quais não querem perder. O ódio que eles têm de mulheres determina que eles não aceitam a mulher como sujeito de direito da sua própria vida e de suas próprias decisões.

Redação: Aline de Campos, de São Paulo
Foto: Patricia Santos