Ciro Gomes: “Precisamos recuperar a ideia de superação da pobreza”

Um dos convidados mais esperados na Bienal dos Estudantes, em Salvador, o político analisa desafios sob governo Bolsonaro. Leia entrevista

Após disputar as eleições presidenciais em 2018, Ciro Gomes (PDT) foi um dos convidados mais aguardados do encontro estudantil de Salvador na última semana, que reuniu mais de 6 mil secundaristas, universitários e pós-graduandos.

Ele participou no dia 7 de fevereiro de um debate acalorado sobre os desafios atuais para o desenvolvimento brasileiro e chegou até a discutir com parte do público estudantil, por divergências políticas. Pouco antes, respondeu às perguntas abaixo para a UBES, UNE e ANPG.

Quarenta anos depois de frequentar, como universitário, a mostra estudantil Massafeira, em Fortaleza, ele festejou encontros de estudantes como espaço de reflexão da sociedade. E comparou seu período em salas de aula, durante a Ditadura Militar (1964-1985), com a atualidade: “Naquela época o inimigo era fácil de ser identificado, era como se você tivesse que correr atrás de um ovo vestido de laranja”.

Ciro na mesa “Desafios para o desenvolvimento brasileiro” (Foto: Jana Maurer – CIRCUS da UBES)

Qual a importância de um evento como esse ser organizado logo no começo desse novo governo?

Ciro Gomes: Primeiro nós precisamos entender a extensão e a gravidade da nossa derrota. É humilhante mas é basicamente a constatação que vai nos preparar para organizar a virada. Essa virada não será feita pelo caminho tradicional da política, mesmo que pelos partidos de esquerda. Isso será feito a partir de uma reflexão profunda que a sociedade, pelos seus membros mais sensíveis, vai começar a fazer pela sua juventude estudantil. Nós precisamos ter clareza dentro da realidade popular do país. Há muitas distorções de referência pois não é mais fácil identificar o inimigo, como foi na minha geração.

O identitarismo não é a solução, embora hajam valores graves a serem defendidos. A pauta não responde ao drama da pobreza versus a velha luta de classes. Hoje só os estudantes têm condições de fazer esse debate, pois o campo progressista está profundamente dividido por questões graves, complexas e precisamos, ainda que fraternal e respeitosamente, eliminar essas diferenças a esses nervos expostos da sociedade.

O atual Ministério da Educação acredita numa suposta doutrinação ideológica que deve ser combatida como prioridade da pasta. O que acha disso?

Ciro: Para a nossa felicidade dentro dessa tragédia, eles são energúmenos. Essa é uma palavra que não se usa mais. Estou tirando do baú pois não há outra característica para esse ministro da Educação e seu chefe.

Eu tinha um velho amigo que dizia que a educação depende basicamente de um primário bem feito. Eles não vão conseguir evitar que o primário seja bem feito pelo povo brasileiro. Eu sou de uma geração que teve, por força da ditadura, esse mesmo tipo de coisa [que o governo atual defende]. Tínhamos aula de Educação Moral e Cívica. E aquilo acabou servindo para que eu fosse mais progressista ainda. Eles não vão conseguir converter milhões de professores brasileiros para essa estupidez.


Tínhamos aula de Educação Moral e Cívica. E aquilo acabou servindo para que eu fosse mais progressista ainda.

O que significa respeitar o resultado das urnas e ao mesmo tempo resistir?

Ciro: Respeitar o resultado das urnas é uma inerência que exaure em si mesma. Ganhou, toma posse. A partir daí, cada um vai cumprir o papel que a sociedade lhe deu. Mais de 14 milhões de brasileiros me deram um papel de fiscalizar e cobrar.

O que eu acho, entretanto, é que a gente não pode aceitar a miudice que eles gostariam. Então a ministra não sei das quantas, que, francamente, às vezes me dá pânico, coloca em debate a cor da roupa das crianças. Eu me recuso [a discutir]. Pois isso não consulta em nenhuma das questões com que estamos preocupados: emprego, salário, violência, saúde, inadimplência no SPC, déficit público, crise da previdência, etc. A gente não pode entrar nessa. O que podemos fazer? Em homenagem aos eleitores, é dar um tempo. Deixa o cara se enrolar. Deixa dizer a que veio. Aos 100 dias, vou convocar a imprensa brasileira e oferecer um painel objetivo.

Na sua juventude você participou de mostras estudantis em universidade, como a Massafeira no Ceará. O que você ainda tem do estudante daqueles anos?

Ciro: Tudo! Eu ainda sou um velho que não envelhece. Meu espírito é de estudante. Meu espírito é de revolta, de insurgência, que eu adquiri nesse tempo. Menos ansiedade, mais capacidade de ver lá na frente, que só vem com o tempo. Mas talvez meu espírito seja mais revolto ainda. Porque naquela época o inimigo era fácil de ser identificado, era como se você tivesse que correr atrás de um ovo vestido de laranja, uma cor que até os daltônicos enxergam, como é meu caso.

Hoje, você pode defender, por exemplo, os direitos dos animais domésticos, como fez o deputado mais votado no Ceará. Uma causa muito simpática, mas no que consulta na questão de classe, na pobreza, miséria, falta de acesso à segurança, saúde, educação? Talvez o maior desafio hoje seja esse, não aceitar essas sequelas neoliberais. E recuperar a ideia de superação da miséria, identificando caminhos concretos que possam fazer com que essa ascensão social possa acontecer.