ARTIGO: Mulheres em resistência

As vozes femininas que ganharam força com o Ele Não, precisam ser ecoadas para resistir às ameaças de um governo que quer silenciar a juventude

É tempo de resistência. Para nós, mulheres, resistir é um verbo diário, que está marcado na nossa história, nas nossas conquistas, na nossa luta e na nossa revolução. Para as mulheres, resistência está diretamente ligada a liberdade, nós resistimos diariamente à organização patriarcal, LBTfóbica e racista que nos tira direitos, ataca os nossos corpos, nossos territórios e silencia as nossas vozes.

 Historicamente nos forjamos na resistência e muitas de nós deram passos juntas de braços dados para construir uma sociedade onde os valores feministas e libertários pudessem ser ecoados. Hoje, em um 8 de Março marcado por uma conjuntura que tira vários direitos e ataca diretamente o povo brasileiro e também a América Latina, nós, mulheres, estudantes, pesquisadoras e cientistas, nos colocamos nas ruas em todo país para denunciar os ataques neoliberais e conservadores que organizam o Estado e a política machista de Jair Bolsonaro.

O ano de 2019 se inicia com muita luta para as mulheres brasileiras. Denunciamos a reforma da previdência elencando que ela afeta diretamente a vida das mulheres, pela organização sexual do trabalho, onde nós somos a maioria entre as pessoas desempregadas, estamos em maior número nos empregos informais e ainda somos as principais responsáveis pelo trabalho doméstico e do cuidado, o que nos faz entrar e sair diversas vezes do mercado de trabalho, dificultando nosso tempo e nossa contribuição previdenciária.

 A dissolução de importantes políticas de governo como a Secretária de Diversidade no MEC, o Ministério do Trabalho, a indicação da ministra Damares Alves com uma pauta conservadora para ocupar a elaboração da política para mulheres do governo, nos mostra que as pautas não só econômicas mas também de projeto de país desse governo não só retira o que conquistamos, mas ameaça diretamente a nossa luta e a nossa construção de sociedade.

É preciso que denunciemos incansavelmente toda e qualquer proposta da Lei da Mordaça que tente silenciar e não permitir uma educação emancipadora para a nossa juventude. O projeto educacional que acreditamos é laico, e não cabe qualquer cerceamento de expressão dos nossas educadoras e educadores, de quem luta por uma escola, uma universidade livres do machismo, do racismo e da LGBTfobia, cada vez com mais investimentos públicos e não com tentativas de se estabelecer o que pode ou não ser dito de acordo com o projeto do governo federal. Nesse sentido, é preciso garantirmos também uma produção acadêmica e científica sem estar a serviço de um projeto de governo e do interesse do capital privado, para isso é fundamental o financiamento de bolsas por parte do Estado.

 É preciso que o movimento de mulheres contra Bolsonaro, que ganhou peso e voz nas ruas com o grito de Ele Não, e que escancarou ao que vinha esse governo, seja ecoado neste 8 de Março em todo canto do país, para dizer que esse governo nos ataca, nos cerceia e nos tira direitos diariamente.

 A Mangueira já cantou para o mundo todo em seu samba-enredo: “Brasil, o teu nome é Dandara”. Em todo país as mulheres vão perguntar: Quem matou Marielle Franco? Seremos resistência por Marielle e por todas as mulheres que foram silenciadas por denunciar as mazelas sociais e a desigualdade que organiza esse país. Um anos depois, fazemos luta e nos mobilizamos para denunciar a morte da vereadora. 

 Neste 8 de Março, dia histórico para o movimento feminista no mundo todo, dia de dizer que não nos silenciamos frente a violência contra a mulheres, e dia de colocar nas ruas e nas redes pautas tão importantes na construção do nosso movimento como a luta pela legalização do aborto, a luta por uma educação emancipadora. Iremos ser resistência!

 A história que as mulheres contam tem nas nossas linhas a coragem de quem ousa lutar para transformar a sociedade, de quem se coloca na linha de frente contra projetos capitalistas que colocam o lucro sobre o valor da vida. A construção do feminismo é uma construção em movimento, em todo canto,

inclusive nos espaços e instituições educacionais, acadêmicas e científicas. Nós mulheres, nos encontramos neste 8 de Março nas ruas, no movimento, na resistência e na luta. Por Marielle, toda uma vida de luta.

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Ana Clara Franco é diretora de Mulheres da UNE
Maria Clara Arruda é diretora de Mulheres da UBES
Stella Gontijo é diretora de Mulheres da ANPG