“A sociedade não está preparada para ver outras formas de amor”

Encontro de Mulheres Estudantes debate os enfrentamentos de meninas lésbicas, bissexuais e transexuais

“A nossa fase enquanto jovem secundarista é a fase em que nos descobrimos como pessoa, a nossa identidade, e é nessa hora que os dois pilares mais próximos de nós são determinantes: a escola e a família. Infelizmente são nesses pilares que ainda somos enfraquecidos”. A fala de Tathiane Araújo, Secretária Nacional do Segmento LGBT do PSB, sintetiza o desejo de mudança compartilhado na mesa desta manhã, (18).

Com o tema “A realidade das mulheres secundaristas na situação de lésbicas, bissexuais e transexuais – LBT”, as estudantes se reuniram para falar sobre o preconceito em suas escolas e debater os caminhos dessa luta que ainda tem muito que avançar.

“Ser mulher e não heterossexual é ter medo de sair na rua, ser agredida, estuprada. Não é o medo de ser assaltada, é de ter seu corpo violado. A sociedade não está preparada para ver outras formas de amor”, Anitta Barbosa, Diretora do CEM. | Foto: Lene Bento / Circus da UBES.

Anitta Barbosa, Diretora de Mulheres do Centro Estudantil Mossoroense (CEM), compartilhou suas experiências pessoais como estudante, mulher e bissexual. Destacou que a mulher bissexual é, por vezes, invisibilizada: “Nós, mulheres, somos forjadas à luta, à luta pelo acesso ao estudo, aos espaços públicos, à vida”. A jovem também chamou atenção para os perigos representados pelo atual governo federal que não tem preparado políticas públicas para mulheres e LBT’s: “Pelo contrário, tem buscado tirar direitos que viemos lutando há muito tempo”, enfatizou.

De acordo com levantamento realizado, desde 2016, pela Rede Trans Brasil*, a expectativa de vida de travestis e transexuais é de apenas 35 anos e 80% das mortes de trans no Brasil ocorreram em esquinas, enquanto tentavam trabalhar para sobreviver. “Ainda nos deparamos, além da falta de compreensão, com a falta de espaço nas instituições sociais Não tem como não falar da morte social dessas pessoas, isso se não chegarem à morte física. Nos apedrejam de dia e à noite nos vêem nas ruas como a carne mais barata. A sociedade comercializa a carne que repulsa”, disse Tathiane que também é presidenta da Rede Nacional de Pessoas Trans.

Ela, que foi presidenta da União dos Estudantes Secundaristas de Sergipe e a primeira pessoa trans a presidir um grêmio estudantil em Aracaju (SE), não deixou de lembrar seus tempos de secundarista e lamentou o fato de pouco ter mudado: “”O espaço secundarista ainda não é um espaço seguro, ainda não é um espaço digno onde a juventude que sonha se alimentar de futuro possa ser quem é!”.

“Eu não seria a Thatiane, presidenta da rede nacional de pessoas trans, se não tivesse passado pelo movimento estudantil”, Thatiane Alves, secretária nacional do segmento LGBT do PSB e presidenta da Rede Trans Brasil. | Foto: Patricia Santos.

“O EME é um espaço vitorioso, foi conquistado! A nossa luta aqui é por uma luta coletiva para libertação das correntes que nos foi colocada pelo patriarcado”, reforçou Keully Leal, ex-diretora da UBES e da UNE.

Outro ponto discutido foi a evasão escolar devido à homofobia, lesbofobia, bifobia e transfobia e o fato da discriminação dificultar que este estudante conclua seus estudos, pois infelizmente a escola é um estrato da sociedade e ainda reproduz padrões heteronormativos e patriarcais.

“O que me levou à tomar frente nessa luta foi o conservadorismo excessivo nas escolas da minha cidade que perseguem os alunos LBT’s. Pra mim, é muito importante estar aqui vindo de tão longe para representar mulheres trans, negras e indígenas e todos os estudantes, pois não merecemos passar por tanto constrangimento” , Brenda Lourenço, 17 anos, de Lapa (PR). Estudante do Ceebja Paulo Leminski, foi a primeira mulher trans a presidir uma UMES. | Foto: Patricia Santos.


*Conheça o trabalho realizado pela Rede Nacional de Pessoas Trans – Brasil.

Redação: Aline de Campos, de São Paulo
Foto de capa: Patricia Santos