Se não aprendeu a viver em comunidade, não teve processo educacional

A reforma colocada para o ensino médio pelo governo de Michel Temer, em 2016, e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que a sustenta, aprovada no fim de 2018, podem causar ainda mais desilução na juventude brasileira, defenderam os convidados da mesa “Base Nacional Comum Curricular e a escola que queremos”, nesta sexta (8/2), na Universidade Federal da Bahia.

Isso porque, no novo ensino médio, previso para ser implementado nos próximos anos, supostamente a juventude poderia optar pelos aprofundamentos que prefere, nos chamados itinerários formativos. Porém, além das escolas não ficarem responsáveis por apresentar todas as opções de formação, apenas 60% dos conteúdos atuais permanecem garantidos.

“Quanto de história, filosofia, química vai ficar de fora, à mercê da boa vontade do poder público?”, questionou Cesar Calegari, membro do Conselho Nacional de Educação (CNE) por 12 anos, ao mencionar que a BNCC assegura apenas portugês e matemática como componentes curriculares.

Para ele, mesmo estas disciplinas não podem ser instrumentais, mas sim articuladas com as demais áreas, para se formar pensamento contextualizado, construtivo e crítico. “Aquilo que estes atualmente no podem querem evitar”, completou.

“Quanto de história, filosofia, química vai ficar de fora, à mercê da boa vontade do poder público?”, questionou Cesar Calegari

Bancada do capital

José Beltrão, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), foi um dos que lembrou que estas orientações não são só brasileiras, mas sim colocadas pelas grandes corporações internacionais. Segundo ele, o Banco Mundial sugere, no documento para educação desta década, privilegiar numerização e letramento, além de que se recorra à iniciativa privada para os aprofundamentos.

Para o professor alagoano Rafael Pires, estes interesses são defendidos na Câmara Federal por uma espécie de “bancada do capital”, que atuam de forma semelhante à bancadado do boi ou da bala. Fariam parte desta lógica a recente declaração do presidente eleito Jair Bolsonaro de que o jovem tem “fetiche” por ensino superior ou o espaço que a ideia de educação à distância ganha no novo governo: “A discussão é sobre quem vai abocanhar os milhões públicos destinados a livros didáticos anualmente”.

A escola que queremos

Muito mais do que debater os riscos para a escola que não queremos, convidados e estudantes apontaram a escola em que acreditam.

Emancipação, autonomia, criatividade, respeito. Esses foram alguns dos conceitos escolhidos por uma plateia de secundaristas, universitários e pós-graduandos do Brasil todo para descrever o que não pode faltar na escola, questionados pela professora de Filosofia Lara Sayão.

“Dizem que precisa de reforma porque alunos estão entediados. Mas querem colocar uma proposta ainda mais individualista, de preparação para a competição cruel do mercado de trabalho. Me parece que o tédio vem justamente daí”, resumiu a docente, antes de sugerir:

“Põe um garoto na roda de slam e você vai ver se ele vai dormir”.

Todos propuseram uma escola menos individualista e competitiva, mais capaz de ampliar horizontes. “Educação tem que te formar para cooperar, para das sua contribuição nesse mundo”, defendeu Lara, e concluiu: “Se a gente não aprendeu a viver em comunidade e não se sente pertencente, não teve processo educacional de verdade”.

Para a mesa, o momento é de retomar avanços anteriores, como o Plano Nacional de Educação de 2014 e a Lei de Diretrize e Bases de 1996, colocando a visão de educação em todas as esferas, seja no debate com a sociedade, seja nas câmaras municipais e estaduais. Também participaramTulio Beltrão, historiador e professor, e Adércia Hostin, representante do Fórum Nacional Popular de Educação.