Convidados e estudantes propõem caminhos de resistência

A quase 40 dias de governo Bolsonaro, a 11ª Bienal da UNE – Festival dos Estudantes fez debate com forças da oposição

“Não contem comigo para chamar 55 milhões de brasileiros de fascistas”, expôs Ciro Gomes a uma plateia lotada de universitários, secundaristas e pós-graduandos na Universidade Federal da Bahia. A mesa mais cheia e acalorada desta quinta (7/2) nos escontros de base da 11º Bienal da UNE debatia os desafios da conjuntura para o desenvolvimento nacional.

A 38 dias de governo Bolsonaro, estavam presentes as principais forças de oposição. Além de Ciro (PDT), participaram a liderança indígena Sônia Guajajara (PSOL), o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) João Paulo, a presidenta do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Luciana Santos, Ivan Alex (PT) e o mestre em economia rural Nilson Araújo.

Entre visões amplas e diversas, com algumas alfinetadas e divergências, uma das concordâncias foi a necessidade de se abrir diálogo com eleitores de Jair Bolsonaro (PSL), os 55 milhões a que Ciro se referia. Para o político cearense, é essencial assimilar a derrota nas urnas: “Trata-se de entender as causas estruturais da derrota nas eleições para reverter a esperança de milhões de brasileiros pobres que nos abandonaram para votar num líder contra eles próprios”.

Luciana Santos, do PCdoB, propôs para isso a retomada do debate com a sociedade, já que os “métodos utilizados durante a campanha presidencial favoreceram o anti-debate”.

Pontos fracos de Bolsonaro

Para Sônia Guajajara, é viável sim incluir a sociedade no espaço de discussão, com temas caros para todos como jovens na universidade, população LGBT atacada e meio ambiente, por exemplo. “Nem todo mundo é fascista, mas muitos se apegaram a uma desilusão e descrença com a nossa política”, explicou a ex-cantidata à vice presidência. Este sentimento de vingança que precisa ser revertido, disse ela.

Também as muitas contradições do governo Bolsonaro em apenas seis semanas precisam ser exploradas, segundo João Paulo, do MST. Diversos participantes citaram casos de corrupção da família Bolsonaro e a recente tragédia de Brumadinho como feridas já abertas da nova gestão. Como explicou Luciana Santos, o rompimento da barragem que matou centenas de pessoas em Minas Gerais evidenciou os riscos das privatizações propostas pela nova linha política.


Pautas identitárias

Enquanto alguns defenderam que o foco da resistência ficasse nas questões estruturais, outros acreditam na centralidade das chamadas pautas identitárias. “É luta de classes, sim, mas a pobreza no Brasil tem cor. [O deputado do PSOL] Jean Willis precisou deixar o país, as mulheres sofrem ainda mais. Não são lutas laterais”, disse Ivan Alex, do PT.  

A maioria dos participantes finalizou sua fala com ideia de unidade e força. Um deles foi João Paulo, do MST: “Não estamos com medo. Já passamos pela ditadura, pelo governo Collor, Fernando Henrique Cardoso, e chegamos até aqui. Não vamos correr assombrados. Só é possível avançar se for todo mundo junto”.

A mesa foi uma realização unificada do 4º Encontro Nacional de Grêmios (ENG) da UBES, o 15º Conselho de Entidades de Base (CONEB) da UNE e o 8º Encontro Nacional de Pós-Graduandos (ENPG) da ANPG, atividades que acontecem integradas à 11º Bienal – Festival dos Estudantes.