Veja como estes grêmios estão ajudando a combater LGBTfobia nas escolas

Cartazes, palestras, rodas de conversa e cinedebates são ideias implementadas por estudantes que acreditam na escola como lugar de superar preconceitos

Enquanto uma parcela da sociedade defende que assuntos relacionados à gênero e orientação sexual fiquem de fora dos muros da escola, este tema já se faz presente no ambiente escolar, muitas vezes de forma negativa. É o que contam secundaristas de diferentes partes do Brasil, para quem o colégio deve sim ser espaço de combate à LGBTfobia.

De Salvador, Vitória Lima lembra bem quando um garoto do seu colégio estadual não conseguiu subir para as aulas ao se declarar homossexual para a família, pois estudantes se reuniram na escada para xingá-lo. Ela conta que até em sala há desinformação, com professores relacionando um suposto aumento de LGBTs a alimentos transgênicos. A própria estudante do grêmio já passou por experiências desagradáveis: “Antes mesmo de me reconhecer como bi, sofri preconceitos na escola, ouvindo palavras ofensivas de colegas, pelo simples fato de jogar bola”.

No Centro de Ensino Médio 304, em Brasília, agressões verbais constantes fizeram com que o grêmio criasse um projeto sobre o assunto. “Elaboramos cartazes que incentivassem as pessoas a não se calar, não se sentir coagidas. E outros dizendo que LGBTfobia era crime”, conta Emerson de Jesus, do grêmio Não Me Khalo.

Uma escola com mais harmonia

Cartazes também foram uma iniciativa do grêmio do Centro de Ensino João Francisco Lisboa (Cejofs), em João Pessoa. “Vieram algumas pessoas dizer que a gente estava tentando empregar ideias esquerdistas”, diz Aline Sampaio, diretora de Imprensa do grêmio. A direção não acatou e concordou que o respeito às individualidades faz parte não de manuais ideológicos, mas sim da Constituição Brasileira.

Nem sempre atividades sobre homofobia e transfobia são bem aceitas. No CEM 304 de Brasília, cartazes foram rasgados. Mas na escola de Aline, em João Pessoa, a reação foi muito positiva. “Achei que arrancariam, mas, pelo contrário, as pessoas foram bem receptivas às mensagens nas paredes, postaram no instagram”, conta. E comemora: “De alguns anos para cá, depois de intervenções do grêmio, não identifico mais preconceitos com tanta frequência, principalmente no período vespertino, do Ensino Médio”.

“Teve um caso na nossa escola de um garoto que se assumiu gay para a família e depois disso não conseguiu subir para a sala de aula, de tanta ofensa recebida pelos colegas”
Vitória Lima, 18 anos
Colégio Estadual Dr. João Pedro dos Santos – Salvador

 

 

 

 

 

“Nós idealizamos um projeto para trabalhar LGBTfobia a partir de agressões verbais que partiram dos próprios alunos contra colegas homossexuais”
Emerson de Jesus, 18 anos,
CEM 304 – Brasília

 

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AÇÕES DE GRÊMIOS CONTRA LGBTFOBIA

1) CARTAZES

Esta forma de ação, simples e possível com materiais acessíveis, foi escolhida por muitos grêmios que conversaram com a UBES.

No CEM 304, de Brasília, as mensagens acabaram rasgadas por estudantes. Mas o grêmio decidiu não desistir e resolveu criar um tema transversal todo mês para ser abordado nas paredes. Em agosto, foi o orgulho lésbico e orgulho gay.

“Tudo aquilo que a gente não conhece a gente teme no começo. Mas depois que você passa a conhecer, você compreende o lado da outra pessoa”, explica Emerson, 19 anos, pacientemente.

Aline, do grêmio do Centro de Ensino João Francisco Lisboa (Cejofs), em João Pessoa, indica esta forma de mobilização. “Pudemos perceber que esta pequena movimentação acabou gerando uma confiança e união a mais entre estudantes”, diz.

2) PALESTRAS E RODAS DE CONVERSA

O grêmio do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET/RJ) realizou pela primeira vez uma Semana Conscientiza LGBT na escola, em agosto.

Participaram, por exemplo, uma professora de ciências, transgênera, e uma psicóloga, mãe de um estudante bissexual. Teve debates sobre transgêneros, origens da LGBTfobia, saúde LGBT.

“Participar da organização foi cansativo, mas muito gratificante ver os auditórios cheios nas palestras. A escola, muitas vezes, é um espaço onde também circulam discursos LGBTfóbicos, mas pode, e deve, ser um espaço de aceitação”, diz Gabriel, da chapa Lênix.

Emanuelle Dias Cavalcante, 18 anos, conta que a ideia da semana era atingir também pessoas que não costumam se abrir para novos olhares.“Espero que a gente faça mais semanas como esta. É também uma resistência”, completa.

Quer fazer algo parecido na sua escola? Como dica, Gabriel recomenda conversar com os professores mais disponíveis e abertos, buscar estudantes que possam se disponibilizar e fazer contato com instituições LGBTs da cidade.

3) CINEDEBATE

Na Semana Conscientiza LGBT, do Cefet Rio de Janeiro, teve um dia de sessão temática. O filme escolhido, Orações para Bobby (EUA, 2009), aborda a história real de um jovem cuja homossexualidade não é aceita pela mãe. Presbiteriana, ela tenta “curar” o rapaz com mensagens da Bíblia.

Neste link, reunimos algumas opções de filmes sobre orientação sexual e gênero que podem ser exibidos gratuitamente na sua escola.

Combate à LGBTfobia é interesse de todos

Não só estudantes LGBTs agem em projetos contra preconceito nas escolas. A maranhense Aline conta ter expandido seus horizontes com atividades assim: “Enquanto gremista e enquanto pessoa, depois que vi a aceitação da atividade no nosso colégio, abri mais minha mente para o mundo LGBT. Quando era criança, ouvia essas ideias de que ‘homossexuais fazem mimimi’ e concordava. Hoje, depois de participar de encontros estudantis, geralmente procuro os debates LGBTs e luto pela causa, mesmo sendo hétero”.

A carioca Emanuelle Cavalcante, do Cefet, também diz ter aprendido muito ao participar da organização e das atividades da Semana Conscientiza LGBT, em agosto: “Às vezes a gente pensa que já é bem informada por ter uma percepção da sociedade, mas tem muito mais a saber e também a saber como compartilhar informações”.

“Ouvia essas ideias de que ‘homossexuais fazem mimimi’ e concordava. Hoje, depois de encontros estudantis, geralmente procuro os debates LGBTs e luto pela causa.”

Aline Sampaio, 17 anos
Centro de Ensino João Francisco Lisboa, João Pessoa