Mais de mil municípios deixam de realizar Enem em 2018

Governo Temer diminui para menos da metade as cidades sede do Enem e atinge menor número desde 2002

No ano em que completa 20 anos, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tem a maior redução de cidades envolvidas desde que foi criado, em 1998. Os municípios com aplicação do exame passam de 1.728, em 2017, para 550 em 2018.

É verdade que o número de inscritos, divulgado nesta terça (29), também caiu 18%, de 6,1 milhões para 5,5 milhões. Mas as cidades sede diminuíram muito mais: 68%.

“O Ministério da Educação não pode encolher um exame que tem se firmado como acessível e democrático ao longo de tantos anos, é uma conquista dos estudantes”, afirma o presidente da UBES, Pedro Gorki.

A lista de cidades participantes pode ser encontrada no edital público de convocação do Enem pelo Inep, instituição do Ministério da Educação responsável pela prova. Sem alarde nem anúncio, a abrangência do exame volta ao menor nível desde 2001, quando chegou a apenas 276 municípios (veja tabela abaixo).

Por e-mail, a assessoria de imprensa do Inep explicou que os critérios adotados para a seleção de municípios sede do Enem são revisados anualmente para “aperfeiçoar esses processos, otimizando recursos logísticos empregados no Exame”. Segundo o Inep, é considerada “a dispersão dos inscritos em relação às últimas aplicações do Enem”. Porém, o número de inscritos no ano passado, cerca de 6 milhões, é semelhante ao de 2012 (5,7 milhões), quando já haviam mais de 1.600 cidades sedes do exame.

Dificuldades para os inscritos

Além das dificuldades para chegar ao local de prova sem atrasos em municípios vizinhos, os jovens de cidades excluídas da lista do Inep precisarão pagar para os dois dias do exame as passagens de transporte intermunicipal, em geral muito mais caras.

No caso de Mangaratiba (RJ), por exemplo, uma das cidades excluídas, o estudante Gabriel Costa conta que os participantes terão que desembolsar R$ 10,60 por cada dia. Lá, uma união de grêmios, comunidades escolares e ONGs entraram com representação no Ministério Público Federal pela exclusão.

 “É complicado, por causa de corte de verba, a gente ser prejudicado dessa forma, de um exame que abre tantas oportunidades na vida dos jovens”, diz Gabriel.

 Enem, uma conquista

Realizado ao fim do ensino básico, o Enem é reconhecido pelos estudantes como um exame justo e que pode abrir muitas portas, por ser usado para compor a nota de muitos vestibulares públicos, para a garantia de uma vaga universitária via Prouni (Programa Universidade para Todos) e bolsas do Fies (Fundo de Financiamento Estudantil).

O exame também é referendado por exigir mais lógica, raciocínio e domínio da linguagem do que a “decoreba” de conteúdos, além de isentar de taxa os formandos do ensino médio público.

LINHA DO TEMPO

1998: Primeira aplicação do Enem.

100 cidades com aplicação da prova

2001: Estudantes do terceiro ano do ensino médio público passam a ter isenção na taxa de inscrição

276 cidades participavam do exame

2004: Criação do Prouni (Programa Universidade Para Todos), para bolsas no ensino superior privado a partir da nota no Enem

605 cidades-sede

2009: Criação do Sistema de Seleção Unificado (Sisu), que usa nota do Enem para entrada em universidades públicas

1.829 cidades com aplicação de prova

2010: Enem passa a ser pré-requisito para solicitar o FIES (Fundo de Financiamento Estudantil)

cerca de 1.500 cidades envolvidas na prova

2017: O Enem deixa de ser  usado para certificado de conclusão do Ensino Médio. Número de inscritos diminui em 3 milhões.

2018: O número de cidades sede passa de 1.728 para 550, índice de 2002