#EducaçãoSemMordaça: Em solidariedade à UnB, Unicamp também terá disciplina sobre o golpe de 2016

“A ideia surgiu como uma resposta às declarações do ministro da Educação Mendonça Filho”, diz professor da universidade

Como se não bastasse a Lei da Mordaça, que quer restringir o livre debate nas escolas, as universidades também têm enfrentado tentativas de censura do atual Ministro da Educação.

A exemplo da UnB (Universidade de Brasília) que recebeu críticas do MEC, a Unicamp (Universidade de Campinas) divulgou nesta semana que também irá realizar uma disciplina sobre o golpe à Democracia, de 2016.

Segundo Wagner Romão, cientista político e professor do IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas) da Unicamp, os professores acreditam que não bastaria uma moção de repúdio à declaração do MEC sobre o assunto.

“Dezenas de nós, professores do IFCH, entendemos que deveríamos também elaborar o nosso curso, repetindo o título da disciplina do professor Luis Felipe Miguel, da UnB, em solidariedade a ele”, declarou.

O ministro da Educação, Mendonça Filho (DEM), se posicionou contra a disciplina proposta pela UnB e afirmou que irá acionar o MPF (Ministério Público Federal), a AGU (Advocacia-Geral da União), a CGU (Controladoria-Geral da União) e o TCU (Tribunal de Contas da União) na tentativa de barrar a disciplina.

“Um governo de viés autoritário e formado por ministros pouco afeitos à dignidade destes cargos”

Para o professor Wagner Romão, a declaração de Mendonça Filho “foi, no mínimo, infeliz” e denuncia o viés autoritário do governo atual. “O ministro da Educação deveria ser o primeiro a defender a liberdade de pesquisa e ensino e zelar pela autonomia universitária prevista no artigo 207 da Constituição”, ressalta.

“Percebemos que seria mais interessante promover um curso livre, aberto à participação do público”, Wagner Romão, professor do IFCH.

Ao contrário do que Mendonça Filho vê como “promoção de uma tese de um partido político”, o curso será uma disciplina optativa que não ocupará espaço na grade curricular dos cursos da Unicamp e está sendo preparado por docentes e pesquisadores do IFCH especializados nos assuntos abordados.

Romão informou que o conteúdo será desenvolvido com base nos referenciais teóricos e com a trajetória de pesquisa de cada docente: “Cada colega abordará um tema ou aspecto do golpe e das políticas do governo Temer. Iniciaremos, inclusive, com uma aula sobre a pertinência em se utilizar o conceito de golpe de Estado para caracterizar a destituição de Dilma em 2016”.

Por uma educação sem mordaça

As aulas do curso serão abertas a pessoas externas à Unicamp e serão transmitidas on-line. De acordo com o professor, assim que a ideia do curso repercutiu nas redes sociais, a instituição passou a receber uma grande quantidade de telefonemas e mensagens de pessoas interessadas no curso.

Questionado sobre a autonomia do MEC de interferir na grade curricular, Romão esclareceu: “O MEC não tem o poder de interferir, sobretudo em disciplinas as quais o aluno opta livremente por cursar ou não. Vale destacar que, nas Ciências Humanas, geralmente as optativas têm o caráter de apresentação de resultados de pesquisa. De modo que as ameaças do ministro também mostram que ele não é do ramo”.

Instituto de Filosofia e Ciência Humana (foto: site IFCH)

Com o total de 30 aulas, o curso tem previsão de início para o dia 12/03. Fiquem ligados que a Unicamp ainda vai divulgar todas as datas, temas das aulas, professores, e modo de inscrição. Acompanhe na página do DCP (Departamento de Ciência Política da Unicamp) no Facebook e no site do IFCH .

 

 

Por Aline Campos