ARTIGO: Escola de um partido só

Por Rozana Barroso, Diretora de Escolas Técnicas da UBES

Acabamos de sair das eleições mais difíceis desde a redemocratização. Uma onda de noticias falsas enganou meu avô, sua mãe e a tia do seu amigo que em um piscar de olhos passaram a acreditar em mamadeira com órgão genital, kit gay e que tudo isso vinha das escolas e dos professores “doutrinadores”. Já era de se esperar que o projeto de lei “Escola sem partido” viria a tona e com muita força após o período eleitoral, mas fica o questionamento: o que significa mesmo esse PL?

No artigo 2 do projeto de lei, encontra-se que a educação nacional deverá atender aos princípios de neutralidade política, ideológica e religiosa, mas que nada deve ser debatido em sala de aula para não causar conflitos à religião dos pais ou do próprio estudante. Percebe-se que trata de apenas um seguimento de religiões e que a partir deste, a individualidade de outros estudantes deverão ser escondidas, até porque debater gênero e o combate aos preconceitos como LGBTfobia, racismo e intolerância religiosa, se enquadra como “doutrinação” e os professores poderão ser denunciados.

A maior justificativa é que a escola deve ensinar e não educar e que os professores “travestidos de militantes” parem de formar “comunistas”. É problemático e doloroso ver o que querem obrigar aos tão aguerridos professores a se submeterem. Em diversos estados, os mesmos recebem salários parcelados, trabalham sem mínimas condições e mesmo assim, continuam exercendo o trabalho com excelência. O que se caracteriza como comunismo na cabeça de pessoas como Magno Malta, Silas Malafaia ou políticos de partidos como o PP, o partido com mais escândalo de corrupção, ou PSL, o partido mais fiel a Michel Temer, é o respeito e a defesa dos direitos de todo o povo brasileiro. A escola deve ser o espaço de conhecimento da história, de respeito ao próximo e de preparação para meninos e meninas que construirão um Brasil diferente dos árduos relatos que estudamos nos livros.

É impossível não lembrar dos anos de chumbo e da enorme cicatriz que a tentativa de calar a juventude trouxe para a história do Brasil. Querem um exército de pessoas sem críticas e conformadas com a desigualdade e injustiça. O que o discurso da “moral” e “bons costumes” esconde é a pior face daqueles que usam a política como meio de realização dos projetos individuais. Pessoas envolvidas em diversos escândalos, mas que usam da religião como palanque para incentivar a alienação daqueles que hoje se manifestam contra tal absurdo.

O que querem implementar em nossas escolas é o projeto de um partido só: o partido da intolerância, da ameaça a democracia, a liberdade, a justiça e a educação. Precisamos estar atentos, unidos e organizados junto dos estudantes que dão a vida para defender esse país. A UBES, UNE e ANPG mais do que nunca são nosso braço direito e através desse megafone, organizaremos a juventude e defenderemos o Brasil. Se há mesmo um interesse em melhorar a educação por parte dos políticos defensores desse PL, convido que se junte a nós contra o roubo das merendas, das verbas, dos materiais das escolas técnicas e contra o pacote de retrocesso que ameaça o funcionamento das instituições de ensino e limitam por 20 anos os investimentos nos serviços públicos.

Retroceder aos tempos em que os estudantes não tinham liberdade de expressão e que os profissionais de educação tinham medo de dar aula é inadmissível num país tão plural. É um ataque à Constituição.

 

Rozana Barroso