7 décadas em 7 entrevistas: 7 perguntas sobre os anos 2000

Para Yann Evanovick, presidente da UBES na gestão 2009-2011, esta foi “A” década do movimento estudantil

De 2000 a 2010, o movimento secundarista brasileiro enfim pôde colher resultados de uma luta insistente que passou de geração a geração desde a Ditadura Militar (1964-1985). Por exemplo, a multiplicação de escolas técnicas federais, o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), o Fundeb (Fundo Nacional da Educação Básica)  e a criação de um Conselho Nacional de Educação.

Os secundas não apenas assistiram: participaram ativamente da construção das novas políticas públicas, programas e modelos. Quem conta essa história é Yann Evanovick, que construiu o movimento secundarista em Manaus (AM) ao longo da década e terminou o período à frente da UBES. Ele relembra como foi participar deste momento, quais as principais lutas e vitórias dos secundas naquela época.

 1. A partir de 2003, o Brasil teve um governo popular depois de muitos anos de neoliberalismo. Quais os impactos disso para a educação e o movimento estudantil?

Yann Evanovick: Desde a Ditadura Militar o movimento estudantil viveu uma agenda defensiva. Os anos 2000, pelo contrário, seguramente foram de grandes conquistas para a educação. Inclusive é uma honra poder conceder entrevista sobre esta década. É “A” década do movimento estudantil.

Foram muitas conquistas para a educação, para a ciência e tecnologia, para a juventude e para o povo brasileiro como um todo. Desde o presidente Nilo Peçanha, que criou as primeiras escolas técnicas em 1909, não havia se construído tantas unidades como na expansão dos Institutos Federais. Conquistamos programas como o Prouni (Programa Universidade para Todos) , o Reuni (Reestruturação e Expansão das Universidades Federais), o Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico).

2. Qual o papel dos secundaristas nas conquistas daqueles anos?

Yann: É muito importante registrar que tudo isso veio como resultado de muita luta e mobilização. E a UBES foi protagonista neste processo, quando falamos em Conselho Nacional de Educação, Conselho Nacional de Juventude, as conferências nacionais, o Fórum Nacional de Educação. Nestes espaços foram construídos o Plano Nacional de Educação, a aprovação dos 50% dos royalties do pré-sal para a educação, os 10% do PIB, a PEC da Juventude…

3- A existência destes espaços democráticos, como conselhos e fóruns, era uma novidade desta década?

Yann: Sim. Foi uma mudança na Democracia brasileira. Ficou demonstrado que era possível governar a partir de longo debate com a sociedade. Essa política de conferências, conselhos e fóruns sem dúvida foi um marco no processo de democratização das decisões.

Eu tive oportunidade de ser membro da organização da primeira Conferência Nacional de Educação. Lá que colocamos pela primeira vez a meta dos 10% do PIB para a educação e objetivos como expandir o ensino público, melhorar a condição física das escolas, a remuneração dos professores.

No CONJUVE, o Conselho Nacional de Juventude, conseguimos incluir o conceito de juventude na Constituição pela primeira vez! Parece simples, mas foi muito importante para respaldar políticas públicas.

Reunião do Conjuve em Brasília, 2010: “Essa política de conferências, conselhos e fóruns sem dúvida foi um marco no processo de democratização das decisões”

4- Dentre essas conquistas, em 2006, foi instituído o Fundeb (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica). Por que isso é importante?

Yann: Este fundo assegura a remuneração dos professores em alguns estados e recursos para a educação. É essencial para o financiamento. Antes dele, havia o Fundef, que só ia até o Ensino Fundamental e deixava o Ensino Médio descoberto.

A partir da mudança da lógica de prioridades de governo, as políticas públicas foram mudadas. E o Fundeb foi a compreensão de que o ensino médio também precisava de financiamento.

5- Na sua opinião, por que um governo mais progressista deu mais prioridade para a educação?

Yann: Não é uma particularidade de um governo progressista. Tem governo conservador que tem a educação como prioridade. A questão é ter um projeto de nação. Tendo um projeto de nação forte, tem educação como prioridade. Os governos da Alemanha ou do Japão, por exemplo, não são progressistas, mas investem em educação.

Tem a ver com uma perspectiva de presente e de futuro. Naquela época, nós tínhamos um projeto de nação em curso. O golpe de 2016 foi para desmontar este projeto. O que se tem hoje é o projeto de colocar o Brasil novamente de joelhos diante de grandes nações.

6. Depois de mais de 50 anos em que o regime militar colocou fogo na sede da UBES e da UNE, os estudantes recuperaram o mesmo terreno, em 2007. Qual o simbolismo disso?

Yann: O primeiro ato da Ditadura Militar foi demolir a sede da UBES e da UNE, por quê? Porque acreditaram que estariam incendiando e demolindo a organização dos estudantes, os sonhos da juventude brasileira.

Por isso o ato de reerguer a “casa do poder jovem”, no Rio de Janeiro, representa para a democracia brasileira a derrota destes que acreditaram nisso. A juventude foi a linha de frente da resistência na ditadura e continua hoje sendo agente mobilizador.

*Na foto de destaque acima, Yann participa do lançamento da pedra fundamental do novo prédio da UBES e da UNE, no Rio de Janeiro, com o então presidente Lula e o presidente da UNE Augusto Chagas, 2010

De volta para casa: na foto, a sede da UBES e da UNE, no Rio de Janeiro, incendiada pelo regime militar em 1964. Terreno foi recuperado em 2007

7. Na sua gestão, aconteceu o primeiro encontro de grêmios da UBES, em 2010. Que diferença faz os estudantes de grêmios pelo Brasil poderem se encontrar?

Yann: A gestão foi construída a muitas mãos, jovens que se dedicaram, um conjunto de agentes. Tivemos a oportunidade de realizar o primeiro ENG e também o primeiro EME, Encontro de Mulheres Estudantes, com a mobilização e protagonismo das meninas daquela geração.

Todo encontro é espaço importante de formação e de diálogo. E de construção pela base. É o grêmio que está ali, no dia a dia, para lutar pelo esporte, pela segurança, pela cultura. Ele é a entidade dentro da UBES com desafio de manter erguidas as bandeiras do movimento estudantil. Tenho orgulho de ter sido presidente no primeiro ENG e EME.

“Tivemos a oportunidade de realizar o primeiro ENG e também o primeiro EME, Encontro de Mulheres Estudantes, com a mobilização e protagonismo das meninas daquela geração.”