Para geração de Edson Luís, é momento da sociedade se posicionar de novo

Juca Ferreira, Marcos Mello e Bernardo Joffily, lideranças secundaristas quando estudante foi assassinado, falam sobre execução de Marielle e condenação de Lula

O que a execução da vereadora Marielle Franco, em março de 2018, tem em comum com a morte do estudante Edson Luís, em março de 1968? Nada melhor do que perguntar para quem viveu os dois momentos.

“São contextos muito diferentes, mas semelhante é a repercussão e a comoção”, arrisca Juca Ferreira, que hoje é secretário de Cultura em Belo Horizonte, mas que 50 anos atrás era liderança secundarista.

“Eu estava na Bahia, tinha 19 anos, e quando Edson Luís foi morto por um policial durante um protesto, a repercussão foi imensa no Brasil todo. Foi um momento de tomada de consciência. Momentos trágicos, em geral, sacodem a sociedade”, analisa o sociólogo.

Naquela época, o povo brasileiro se organizou pela primeira vez contra a Ditadura Militar, depois de quatro anos, na Passeata dos Cem Mil. Juca é otimista de que hoje também a população esteja se conscientizando:

“Percebo a perplexidade que as pessoas têm manifestado. A sociedade está mobilizada, tem luta quase que diariamente”.

Para quarta (28/03), 50 anos depois da morte do estudante, um grande protesto está marcado no Rio de Janeiro: “Por Marielle, por Edson! Pela Educação e Contra a Intervenção”.

Leia também:
Jornada de Lutas por Edson e por Marielle: Não nos calarão!
1968-2018: Cinquenta anos depois, Rio de Janeiro vive outro luto e outra efervecência

Passeata dos Cem Mil, junho de 1968: pós morte de Edson Luís, sociedade se uniu contra Ditadura

Violência e solidariedade

Marcos Mello também era secunda quando Edson Luís morreu e também chegou a presidir a UBES naquele período, como Juca. E também vê o episódio trágico como “catalisador da luta contra a ditadura”.

“É um acontecimento simbólico, como essas fotos que retratam uma época inteira: combina a violência brutal, tão entranhada na sociedade e no aparato estatal do nosso país, com a coragem, a solidariedade e o espírito guerreiro da nossa gente”, comenta Bernardo Joffily, que era vice-presidente da UBES na época.

Morte de Edson Luís: “Acontecimento simbólico, como essas fotos que retratam uma época inteira.” Bernardo Joffily, vice-presidente da UBES 1968

Execução de Marielle Franco: “A realidade tem como semelhança com aquele período de 1968 a volta do controle da aristocracia.” Marcos Mello, ex-presidente da UBES em 1968

Depois da ditadura, outro golpe

Os três veem ainda de forma parecida o momento do País hoje.

“A realidade tem como semelhança com aquele período de 1968 a volta do controle da aristocracia, se manifestando nas várias formas de repressão contra as forças progressistas”, coloca Marcos.

Eles se referem tanto à execução da Marielle Franco quanto à condenação sem provas do ex-presidente Lula.

Juca completa: “Com o impeachment de Dilma Rousseff, se inicia um processo de golpe que não está concluído ainda. Eles já tinham perdido quatro eleições e iam perder mais duas. Agora querem artificialmente tirar Lula das eleições e cercear a liberdade de escolha. Temo que não tenham pudor de apelar para violência ainda mais explícita”.

Bernardo Joffily: “Hoje, como em 1964, vivemos um surto direitista. A execução de Marielle e a condenação de Lula são bem ilustrativos”.

Momento decisivo

É “dolorido” viver este cenário depois de ter superado uma ditadura, para Marcos. “Confesso que surpreendeu esta degradação política e interrupção da vida democrática”, diz Juca. Mas eles são otimistas com o que vem a seguir.

“Estamos em um momento muito decisivo para o futuro do país. É um momento difícil, mas que o povo brasileiro tem condições de vencer”
Juca Ferreira, ex-presidente da UBES

Artistas durante Passeata dos Cem Mil, em junho de 1968