O Brasil inteiro em um só grêmio

Líderes estudantis se reúnem e garantem que a democracia não só muda o ambiente escolar, mas também transforma vidas

Quase 12 horas de viagem e um longo trajeto cruzando os estados de Pernambuco, Paraíba e o Rio Grande do Norte. O destino foi Fortaleza (CE), cidade que recebeu os estudante do Instituto Federal de Alagoas e muitos outros para celebrar, de 30 de janeiro a 1o de fevereiro de 2017, a terceira edição do Encontro de Grêmios da UBES, o principal momento de troca de experiências entre lideranças estudantis de escolas de todo o país.

Pedágios, rifas e a irreverência característica dos se- cundas foram algumas das formas encontradas pelo pessoal de Maceió para não perder o encontro. Muitas caravanas levaram ainda mais tempo, como é o caso dos jovens paulistas que percorreram 13 quilômetros, tota- lizando três dias de viagem e mesmo com o longo itine- rário não houve sequer um dia de desânimo. E este foi o espírito vivido pelos estudantes durante todo o evento: celebração, luta, festa e a saudável disputa de ideias.

Com mais de 1.200 grêmios presentes, a Univer- sidade Federal do Ceará foi espaço rico de debates e trouxe aos secundaristas a oportunidade de compartilhar a atuação dos grêmios pelo Brasil afora e discutir a crise política por qual atual que afeta diretamente a educação.

Renegado e Tico Santa Cruz durante o 3º ENG.

A estudante Mariana Souza, 18 anos, de Belo Horizon- te (MG), foi uma das presentes. O encontro mudou sua visão sobre a participação política do jovem. “Antes eu achava que política era só o que o presidente do país fazia. Com o grêmio, entendi que política era tudo que acontece no dia a dia”, conta.

A jovem explica que sempre ouviu muito sobre o as- sunto pois era de interesse dos familiares, mas não compreendia o funcionamento daquilo. “Estudava numa unidade mais isolada, não tinha conhecimento de nada. Até que o grêmio começou a fazer ativida- des lá. Aí comecei a me interessar, até fui presiden- ta por um tempo”, lembra.

Mesmo com a Lei 7.398 em vigor desde 1985, que garante a livre organização dos secundaristas nas escolas, os estudantes ainda enfrentam di- ficuldade na formação e implementação dos grê- mios. A exemplo, são os dados levantados pela Secretaria de Educação de São Paulo: Em 2016, os números mostram que apenas 65% das es- colas disponibilizam espaço para o grêmio se reunir e trabalhar. E apenas 47% dos gestores consideram e apoiam a iniciativa.

O grêmio estudantil luta por um modelo de ensino mais participativo, democrático, no qual os estu- dantes são os principais agentes no processo de mudanças. É exatamente por isso que a UBES pro- porciona esse tipo de evento, como explica o dire- tor de grêmios da entidade, Jan Victor. “Esse é um espaço único, em que podemos expor de maneira crítica e organizada todas nossas insatisfações com o governo e também com o modelo de ensino que temos hoje, e aí sim encontrar formas efetivas de combater tudo isso”, afirma.

Você sabia?

O espaço do 3o ENG foi inteiramente pensado para reproduzir as ocupações das escolas, ação que gerou identificação e agradou olhares. Um amontoado de cadeiras coloridas, que formava uma pirâmide foi o símbolo mais evidente da resistência dos estudantes, e se tornou atração principal para que os jovens fizessem muitas selfies e postassem em suas redes sociais.

Originalmente publicado na Revista da Gestão 2015 – 2017.