Meninas negras empoderadas e representadas

Ativista Eliane Dias, da ONG SOS Racismo, foi uma das participantes do debate sobre o feminismo das negras no EME da UBES

Os desafios de uma jovem negra no Brasil são inúmeros. Além de ter menos acesso à educação, aos serviços públicos, ao trabalho, ainda vivenciam uma realidade de violência e estigmatização. Para debater formas de superar essa realidade e trocar experiências nessa luta, o Encontro de Mulheres Estudantes (EME) da UBES trouxe convidadas especiais para o diálogo com as estudantes de todo o Brasil reunidas em São Paulo.

Uma delas,  a ativista Eliane Dias, coordenadora da ONG SOS Racismo, deu uma pequena entrevista ao site da UBES sobre a situação das jovens negras no país e a necessidade de construir espaços de fala para esse público. “Quando você empodera uma menina negra, você empodera uma família negra inteira”, diz.

Além de Eliane, outras convidadas que trouxeram a temática do feminismo negro para o EME da UBES foram Lorena Brandão, do Núcleo Feminista Lélia Gonzalez e Caroline Celite Jango, coordenadora do Núcleo de Estudos Afro Brasileiros Indígenas – NEABI.

Veja abaixo a entrevista com Eliane Dias:

UBES: Como foi para você ter sido uma jovem estudante negra na escola? Quais desafios você enfrentou?

Eliane Dias: Na periferia ainda hoje é como eu estudava há tempos atrás. Onde eu moro, na região do Capão Redondo, toda a parte da ponte para lá, as coisas ainda são muito difíceis. Uma menina negra tem ainda mais dificuldades para se afirmar, para se expressar, se impor, falar, ser ouvida, seja pela falta de conhecimento ou pela questão da autoestima mesmo, de ser quem foge do padrão imposto. Comigo e ainda hoje é assim, não ter voz, ser meio invisível.

UBES: Qual a importância de espaços como esse, para o protagonismo das mulheres negras?

Eliane: É muito importante dar a direção para a união das mulheres negras, dizer a elas que precisam continuar estudando, que devem ser donas do seu corpo, da sua história, que sua vida não precisa ser somente pressão. Elas precisam de auto afirmação, precisam ser amparadas, não sofrer apenas a violência e as responsabilidades.

UBES: O que muda em um país quando você fortalece uma menina negra?

Quando você empodera uma menina negra, você empodera uma família negra inteira, você muda drasticamente aquela realidade. A realidade de ser  a carne mais barata do mercado fica mais longe, você tem mais visão, mais qualificação, você tem suas exigências. A menina negra empoderada não aceitará qualquer trabalho, qualquer parceiro, qualquer ambiente de lazer, isso é maravilhoso. Ela poderá decidir quando e se quer ter filhos, quais parceiros ou parceiras escolherá, terá o auto conhecimento para transformar a sua vida. Acho isso fundamental e é por isso que estou aqui hoje.

Por Natasha Ramos, com edição de Artênius Daniel
Fotos: Karla Boughoff e Gui Silva | CUCA da UNE