“Mas eu não sou as coisas e me revolto”

Por Pedro Gorki, presidente da UMES - Natal

No poema “Nosso Tempo”, Carlos Drummond de Andrade narra uma sociedade perdida, feita de homens com fome de carne, sede de sangue e que sentem que a lei não basta para seus desejos. Homens partidos e incompletos, segundo o poeta.

O Brasil e o mundo não são os mesmos narrados por Drummond em 1945, em meio e quase no fim da II Guerra Mundial, que deixou tantas mães sem filhos, irmãos perderam irmãos, tantas marcas da tortura e horrores e tantos países destruídos.

Realmente, o país não é o mesmo. Nós conquistamos mais liberdade, resistimos à ditadura militar, instalamos e concluímos a Comissão da Verdade e iniciamos um maior combate à tortura e opressão na sociedade brasileira.

Mas será que este país, nossa pátria Brasil, conseguiu sanar a doença que nos corrói que é a tortura e o “justiçamento”? Será que após anos de debates e conscientização, já conseguimos superar as duras imagens da dizimação dos povos indígenas, da escravidão e seus pelourinhos, as marcas da guerra, das ditaduras, dos governos repressores?

Venho humildemente neste artigo refletir sobre como a sociedade brasileira está doente, cega e confusa. Está doente e com sede de sangue, está cega diante das ações da justiça brasileira e confusa diante do que fazer em meio a uma situação delicada que é o caso da “justiça” com as próprias mãos.

Para falar desse problema que vivemos em nosso país, eu poderia citar inúmeros casos recentes de injustiça com as próprias mãos: adolescente amarrado em poste e espancado no Rio de Janeiro, família que espanca e joga de ponte um suspeito de estupro, chacinas, assassinatos, sangue e mais sangue.

Mas resolvi falar da nossa doença brasileira, trazendo à tona o recente caso que aconteceu com um adolescente de 17 anos, dependente químico, que supostamente tentou furtar pertences de um deficiente físico. Não citarei nomes, mas é muito fácil achar notícias do caso na internet.

Até a parte do furto, realmente devemos denunciar a ocorrência ao poder público e exigir a detenção e medidas socioeducativas ao adolescente em conflito com a lei. Mas a frieza, a doença e o ódio de dois homens, com quase 30 anos foi o ápice da tortura, horror e ódio que assombra nosso país.

Ao invés de chamar as autoridades, os dois vizinhos (um deles tatuador) resolvem punir o jovem por si mesmos, já que segundo eles “a família não fez nada”. A partir deste momento, em que os dois adultos resolveram que deviam eles mesmos fazer justiça, o estúdio de tatuagem virou um cenário de horror e uma sessão de tatuagem, que o tatuador faz diariamente, virou uma sessão de tortura.

A frieza é tamanha, que um dos homens filma a tortura e posta nas redes sociais como forma de orgulho e contentamento. Eu não tive coragem e nem estômago para assistir ao vídeo, mas os canais de notícias narram que enquanto torturam os homens riem e provocam o adolescente.

Este adolescente sofreu sérios danos psicológicos e físicos, está desaparecido, sua família está em busca dele. Quero deixar neste texto meu total repúdio aos torturadores e meu total nojo de quem defende esse episódio e comemora a destruição da vida de um adolescente. Vocês não sujaram as mãos, mas estão com elas cheias de sangue. E nestas linhas que escrevo deixo meu ódio à parte da mídia brasileira que banalizou o caso e tratou o adolescente como “bandido”, o que vai contra o Estatuto da Criança e do Adolescente, Estatuto da Juventude e Constituição Federal.

Há alguns anos os casos de linchamento vêm mais à tona no nosso país e desde que tomei conhecimento do horror por que passa nosso país todos os dias eu me indigno com a situação. Venho derramando lágrimas enquanto há quem derrama sangue. Venho vendo alguns companheiros e companheiras de luta política banalizando ou achando correto essas atrocidades e tudo isso me deixa ainda mais indignado.

O que esses dois homens fizeram é crime imprescritível, hediondo e cruel. O que mais me assusta é pensar que estamos rodeados de pessoas que a qualquer momento podem tomar tais atitudes horrendas, podem ser nossos vizinhos, colegas de sala de aula, amigos, companheiros, amantes. Pode ser qualquer um, visto que essa epidemia do ódio tomou conta dos corações e mentes de milhões de brasileiros, e infelizmente eu não estou imune de no meu interior ter pensamentos de justiceiro.

Eu compreendo e analiso o que leva uma sociedade a ser assim. Além da carga histórica que eu já mencionei e traz marcas no nosso povo, existe a lentidão do sistema penal brasileiro, existem as opressões diárias do sistema capitalista ao povo brasileiro que nos acumula no peito uma sensação quase crônica de ódio e injustiça.

Mas fica aqui neste texto o pedido de um jovem de 16 anos, nordestino, natalense (Natal é a cidade mais violenta do Brasil e meu estado em 5 meses atingiu o número de mil homicídios em 2017). Fica meu pedido como jovem, que pode ser vítima desse “justiçamento” sem condenação e ampla defesa, por favor, não naturalizem as injustiças, não banalizem o fato de o Brasil ter um linchamento por dia, não ignorem o preconceito e o racismo estrutural do país e consigamos garantir o cumprimento da Constituição Federal.

Sei que infelizmente para muita gente a Constituição é apenas um livro verde e amarelo distante da sua realidade e do seu conhecimento, mas é papel da educação reverter o quadro caótico em que vive o nosso país.

É investindo em educação que vamos sanar a doença da injustiça, é deixando eficiente o Judiciário que iremos avançar no debate e na garantia dos Direitos Humanos.

E para construir essa pátria, um Brasil do tamanho dos nossos sonhos e com a cara e a coragem da juventude, uma educação que Paulo Freire pensou, a justiça que Rui Barbosa sonhou, a liberdade pela qual Zumbi e Dandara dos Palmares lutaram, precisaremos de cada um e cada uma que está disposto a transformar a realidade.

É um longo caminho, é um duro caminho, mas o povo brasileiro já provou e prova todos os dias que conseguimos superar os desafios e alcançar os nossos desejos e anseios.

Precisamos de você para derrotar a injustiça e para que num futuro não tão distante o termo “jeitinho brasileiro” seja sinônimo de resistência, solidariedade e amor.

Pedro Lucas Gorki

Presidente da União Metropolitana dos Estudantes Secundaristas – Natal

Militante em defesa dos Direitos Humanos