Encontro de Mulheres Estudantes: “Não somos mais a primeira-dama!”

Na abertura do 4º EME, participantes destacam que é preciso ocupar escolas, as ruas e também a política para reivindicar fim das desigualdades

Se o Brasil vive uma fase de desmonte de direitos, ruptura da democracia e descrença na política, o caminho para reverter esse quadro é ter mais mulheres na condução do nosso futuro. Foi o que defenderam as participantes da abertura do Encontro de Mulheres Secundaristas na manhã deste feriado da Independência, na Faculdade Zumbi dos Palmares, em São Paulo.

Marianna Dias, presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE) e uma das convidadas da mesa “Mulheres na resistência, ocupando as escolas e o Brasil”, lembrou que foram as mulheres que começaram a resistir ao golpe no Brasil, ainda em 2015, na primavera feminista. E deu a deixa:

“Nossa geração não é mais a de primeira-dama, mas sim de presidenta do grêmio, presidenta das entidades estudantis e também do país. Temos o desafio de fazer com que a cara da política não seja a de Michel Temer e Eduardo Cunha, mas a cara das meninas que ocupam e usam a política para transformar a vida para melhor”.

O apelo, reforçado pela presidenta da União Brasileira de Mulheres (UBM) Vanja Andrea, é para combater a descrença na política e nos movimentos sociais com força e ousadia. “Assim como vocês mostraram nas ocupações de escolas que feminismo, LGBTfobia e racismo são temas essenciais, precisamos dessa mudança no país”, convocou Vanja, aplaudida.

O grito das presentes misturava sotaques do Rio Grande do Sul, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais, e ressoava no auditório: “Nem recatada / Nem do lar / A mulherada tá na rua pra lutar”.

Descolonizar os currículos

Você sabia que há uma lei que determina nas escolas o ensino de história e cultura africana? Anatalina Lourenço, da APEOESP (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), lembrou que a lei federal 10.639 é “ferramenta fundamental para desconstrução do currículo colonizado”.

Ela explicou que “não dá para falar de luta feminista sem a importância da luta por uma educação feminista”. Ou seja: a presença de negras, negros, gays, lésbicas precisa estar nos livros e nas salas de aula. “A mulher negra, última na pirâmide, é a que mais sofre com desmontes atuais. Ela precisa ter autoestima e lugar no mercado de trabalho”, disse.

Ocupar o feminismo

As participantes concordaram que cada vez mais mulheres e meninas se reinvidicam feministas, o que mostra um avanço da luta. Nalu Farias, coordenadora da Marcha Mundial das Mulheres (MMM), lembrou das gerações que lutam desde a Europa medieval e apontou:  “Nosso conhecimento é coletivo. Quando vocês começam uma luta numa escola, é a luta de muitas que continua, a luta das professoras, de colegas que vieram antes”.

Por outro lado, Nathalia Vieira, do movimento Olga Benário, mostrou preocupação com a apropriação da luta pelo capitalismo, que vende batons e produtos “empoderadores” mas sem mudar o quadro real das injustiças e opressões. Ela acredita que é preciso, além do discurso, ação. Como resumiu Vanja sob muitos aplausos, citando Belchior, “Amar e mudar as coisas nos interessa mais”.

Por Natália Pesciotta, de São Paulo
Fotos: Guilherme Imbassahy