Elas se tornaram mães na adolescência e seguiram em frente

Meninas que conseguem driblar a evasão escolar e continuar sonhando contam quais os maiores desafios em ser mãe e estudante ao mesmo tempo

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Um a cada cinco bebês brasileiros que nasceram em 2014 eram filhos de mães adolescentes, de 10 a 19 anos. O número tem diminuído – e a UBES defende a educação sexual nas escolas para que diminua cada vez mais. Em 10 anos, caiu 17%.

Mas este continua sendo um dos maiores motivos para que garotas desistam do Ensino Médio. Entre as secundaristas que deixaram a escola, 18% apontaram a gravidez como motivo. Um pouco melhor do que em 2004, quando esta foi a razão de 25% do abandono escolar de garotas.

Dados: pesquisa Juventudes na Escola, do Ministério da Educação, Organização dos Estados Ibero Americanos (OEI) e Faculdade Latino-Americana de Ciências (Flacso), de 2015, pesquisa Juventudes Brasileiras, da Unesco, de 2005 e Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (Sinasc), do Ministério da Saúde, de 2017

Dados: pesquisa Juventudes na Escola, do Ministério da Educação, Organização dos Estados Ibero Americanos (OEI) e Faculdade Latino-Americana de Ciências (Flacso), de 2015. Pesquisa Juventudes Brasileiras, da Unesco, de 2005. Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (Sinasc), do Ministério da Saúde, de 201 7

A falta de estrutura para deixar os bebês durante as aulas e a necessidade de complementar o orçamento contam muito para a decisão de parar de estudar. Mas outros fatores também podem ser determinantes, como o preconceito e falta de apoio por parte de professores, colegas e até a direção da escola, como algumas garotas contam ao site da UBES e como mostra o relatório da UNESCO Juventudes e Sexualidade.

Por outro lado, ter uma rede de apoio fortalecida e boa recepção no ambiente escolar fazem com que garotas que engravidaram precocemente não deixem de sonhar – o que só comprova a necessidade de psicólogos nas escolas e boas condições de trabalho para os profissionais da Educação. Além disso, a ampliação do acesso a creches, como determina o Plano Nacional de Educação, é fundamental para que mães de todas as idades possam manter outras atividades além da maternidade.

Conheça Rosely, a caminho de ser pedagoga, Mayara, futura advogada, e Brenda, que quer se tornar enfermeira.

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“Falavam que minha vida tinha acabado”

Rosely, 20 anos, mãe de Ruan, 4, vice-presidenta da União dos Estudantes Secundaristas do Acre (UESA) e futura pedagoga
Rosely, 20 anos, mãe de Ruan, 4, e futura pedagoga

Rosely, 20 anos, mãe de Ruan, 4, e futura pedagoga

“Quando fiquei grávida, aos 15 anos, acabei deixando o colégio estadual onde estudava, no Acre. Até fui algumas vezes à aula, mas enfrentei preconceito tanto dos colegas quanto de professores e coordenação. Diziam que a minha vida tinha acabado e que a maioria das meninas na minha situação desistiam dos estudos e eram sustentadas pelas mães. Decidi não ir mais.

Meu filho, Ruan Kalleb, nasceu em novembro e, no ano seguinte, resolvi começar de novo. A experiência, em outra escola estadual, foi bem melhor. Isso fez muita diferença. Fui super bem recebida pelos professores e também pela coordenação. Alguns professores sabiam da minha rotina e me ajudavam com os estudos.

A possibilidade da família ajudar foi fundamental, no meu caso. Consegui estudar de manhã, trabalhar como auxiliar administrativo de tarde e fazer cursinho para o Enem de noite, enquanto meu filho ficava com a bisavó e a tia. Agora consegui uma vaga e vou poder estudar Pedagogia.

A maior dificuldade é como as pessoas mudam o olhar sobre você, depois que engravida. É indignante que, se um homem assume ter um filho, é reconhecido como herói. Se uma mulher decide isso, é fracassada. E quando uma mulher decide não ser mãe também é julgada como um monstro.

A sociedade nos faz sentir apreensivas, como se não pudéssemos mais chegar a lugar algum. E, quando conseguimos realizar objetivos, ainda não somos reconhecidas, porque não fizemos mais do que nossa obrigação.

Outra coisa: quando engravidei, já existiam palestras organizadas pelas juventudes e pela Ubes sobre prevenção, mas isso não atingia bairros mais distantes. Infelizmente, ainda não atinge, mas espero que a gente consiga avançar.”

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“Dá tempo de fazer meu sonhado curso”

Brenda, 18 anos, mãe da Manuela, de 3, e futura enfermeira. vive em São Paulo.

“Até os 6 meses de gravidez, continuei acompanhando as aulas do Ensino Médio. Mas fui ficando com um pouco de vergonha, os amigos se afastaram um pouco, e acabei desistindo.

Eu planejava voltar logo que Manuela nascesse, mas acabei não conseguindo desapegar dela. Me dava dó de deixá-la para ir à aula. Mas hoje tenho 18 anos e acho que ainda dá tempo. Pretendo fazer um supletivo este ano e seguir meu desejo de fazer enfermagem.

Eu achava que não seria capaz de cuidar da minha filha, pois meu avô, com quem eu vivo, não aceitava, e o pai não acompanhava muito. Mas minha família foi me apoiando e eu fui conseguindo.”

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“Deixei de ser jogadora, mas realizo o sonho de fazer Direito”

Mayara, 17, mãe do Gabriel, 2, e futura advogada. Vive no Rio Grande do Sul.
Mayara, 17, mãe do Gabriel, 2, e futura advogada

Mayara, 17, mãe do Gabriel, 2, e futura advogada

“Eu estava perto de conseguir ser jogadora de futebol. Aos 14 anos, já atuava profissionalmente em um time em Canoas (RS). O contrato foi rompido quando souberam que estava estava grávida, com seis meses de gravidez.

Mas eu tinha também outros sonhos, e um deles era fazer Direito. Hoje consigo fazer esta faculdade. Meu avô fica com meu filho enquanto vou às aulas. E estou procurando trabalho.

Apesar da gravidez no 2° ano do Ensino Médio, consegui terminar o ciclo, graças, entre outras coisas, ao empenho de professores e colegas.

Na escola, fui bem acolhida. Conversaram comigo bastante, me davam atividades para casa. Eu podia amamentar meu filho no intervalo. Eles me ajudaram o máximo possível. Meus colegas me apoiaram, me mandavam os trabalhos. Já os outros alunos da escola ficavam me olhando com cara de assustados.

O mais difícil? Ter que se afastar do Gabriel para ir às aulas. Minha mãe ficou com ele por dois meses, mas ela mora muito longe de mim. Eu só o via aos fins de semana. Foi muito ruim. Pensei em parar de estudar. Mas tive o incentivo de amigos. Apesar de ter perdido muitas amizades, os mais próximos me apoiaram bastante.”