Consciência social se aprende na escola?

Para o professor Ocimar Alavarse, da Faculdade de Educação da USP, aprender sobre a realidade socioeconômica do País e combater preconceitos já é função da educação

se nada der certo

O ensino da realidade brasileira e o combate a preconceitos são tarefas da escola, acredita o professor da Faculdade de Educação da USP Ocimar Alavarse. Mas ele sabe que é muito difícil o controle: “Há acompanhamento dos planos pedagógicos, mas as escolas nunca escrevem nos planos que irão praticar preconceito”.

Em entrevista ao site da UBES por telefone, ele lembra da Base Nacional Curricular Comum, que seria uma contribuição do Ministério da Educação neste sentido, e lamenta que ela tenha sido modificada por pressão da bancada evangélica no Congresso. “E a base do ensino médio ainda nem existe, o que é um escândalo”, completa.

Ocimar também vê com desconfiança o conceito de educação que pretende desenvolver “habilidades socioemocionais” dos jovens, uma ideia que tem aparecido muito nas reuniões e encontros sobre ensino e também na nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC). “Meu medo é que as chamadas ‘competências’ desejem que a juventude se cale, aceite o mundo como é.”

ocimar alavarse

Leia a entrevista:

Há um conceito de educação, hoje, que não leva em conta só os conteúdos a serem apreendidos, mas também as habilidades socioemocionais a serem desenvolvidas. Tem-se usado muito o termo “habilidades socioemocionais”. Acha que é o caminho?

Olha, vejo um certo perigo nesta questão das “habilidades socioemocionais”. Esse conceito vem sendo colocado por determinado setor social, por uma camada política, que pode soar como se as pessoas devessem aprender a se acomodar à realidade, à uma visão de mundo. Fala-se em desenvolver “resiliência”, por exemplo, e outras competências para lidar com o mundo como ele é. Pode ser visto como se os jovens tivessem que aprender a “se contentar”. Mas quando as pessoas têm possibilidade, elas revelam que consideram determinadas posições subalternas, como no caso da escola particular que ficou conhecido recentemente.

As competências socioemocionais já são trabalhadas na escola, não colocaria foco nelas. Falam isso como se os jovens já tivessem o resto garantido. É preciso permitir que os jovens tenham contato na escola com o que não teriam em seus ambientes fora dela.

Me preocupa falar sobre habilidades como se os conhecimentos cognitivos já estivessem consagrados. Não estão. O domínio da leitura, que é a mais importante competência, não está garantida.

Acha que é papel da escola ensinar aos jovens noções de realidade socioeconômica brasileira, respeito às classes sociais e empatia ao próximo? É possível ensinar isto?

É tarefa, sim, da escola. As próprias Leis de Diretrizes e Bases (LBD) sinalizam neste sentido. Até quando se aprofundam na Língua Portuguesa, os jovens aprendem que há variantes, não existe apenas uma forma correta de falar e outras erradas, mas maneiras de falar o português  essa é a orientação da LDB para o ensino de português.

Disciplinas como literatura, história, geografia, precisam lidar com a realidade. Agora, o Brasil tem 13% das matrículas de Ensino Médio em escolas privadas. Esta camada social tem na educação a perspectiva de ascensão social, de manter os privilégios da família. “Se nada der certo”, serão trabalhadores comuns! Esta possibilidade chega a causar histeria, pânico, nas famílias. Imagina como tratam a empregada doméstica.

Os jovens têm a visão de mundo de suas famílias, e a escola tem que se preocupar com que os jovens conheçam outras realidades.

Mesmo que sejam instituições particulares, escolas têm uma função social. Como o MEC pode lidar com essas situações de preconceito?

Não há mecanismo para combater isso. Escolas são supervisionadas, podem discutir projeto pedagógico, plano de ensino… Mas é difícil ter este controle. Muitas vezes isto não aparece no programa da escola: “Aqui vamos desenvolver preconceito de classe, aqui desenvolveremos homofobia”… Mas, na prática, encontramos.

Isto é um problema nas escolas públicas também?

Sim, também. As escolas precisam combater uma série de preconceitos. Por isso, quando falamos sobre gênero, precisamos admitir diferenças. A palavra não é “tolerar” diferenças. Mas entender como é e respeitar. Somos o que somos. A escola tem que desenvolver isso.

É difícil porque as famílias já têm a sua visão de mundo. Quando o estudante pergunta “Professor, isto cai no vestibular, ou no Enem?”, está revelando a sua visão de mundo, de que tudo precisa ter uma utilidade e não se preocupa com a aprendizagem. Ora, a escola não serve para passar no vestibular, mas para que a pessoa adquira conhecimentos que não teria no dia a dia. É o “conhecimento poderoso”, como chamamos, que pode explicar melhor o mundo.

Nas minhas aulas da USP, começo lendo um poema. Muitos alunos meus devem achar uma besteira. Afinal, não serve “para nada”. Quer dizer, serve para tornar seres humanos mais sensíveis, mas muitas pessoas têm essa visão de “não serve para nada”.

A Base Nacional Curricular Comum pode ser um norte?

A proposição de uma orientação do MEC aparece com a Base Nacional Curricular Comum. Mas, na própria base, a questão de gênero desapareceu! Quer dizer, este governo fez uma concessão à bancada evangélica…

A base não está aprovada. Está na sua terceira versão e essa terceira versão é fruto de um governo que deu um golpe. Teve mudanças que não refletem o acúmulo de debates em torno da BNCC.

E estamos falando da base para o ensino infantil e fundamental, pois para o ensino médio sequer há uma proposta de base, o que é um escândalo! O governo enfiou goela abaixo uma “contra-reforma” do ensino médio e sequer apresentou o currículo.

A competência 9 descrita nesta atual Base Nacional Comum Curricular BNCC do Ensino Fundamental, diz que é preciso aprender a “exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro”…. Não é uma boa competência?

Essa coisa de “evitar conflito”… Precisamos saber que tipo de conflito queremos evitar. Não  quero sempre a obediência. Claro, não quero conflitos desnecessários, por coisas banais, mas daqui a pouco vão condenar a UBES, por exemplo, por chamar um protesto. Essas “competências” são também formas de moldar, amansar, para como as coisas estão colocadas.

A escola pode disseminar o conflito, sim, a questão é saber qual é o conflito correto.

Temos que combater garotos brigando por futebol. Mas se estudantes se organizam para exigir certas coisas da direção, e isso gera um conflito, este conflito é defensável.

Meu medo é que as chamadas “competências desejem” que a juventude se cale, aceite o mundo como é. Há coisas que não conseguimos mudar, como a lei da gravidade. E, outras, que devemos mudar.