Como as reformas de Temer afetam a juventude?

Especialistas explicam por que mudanças propostas vão levar os jovens a estudarem menos e trabalharem mais

A reforma trabalhista está relacionada os adultos, a reforma da aposentadoria se associa com as pessoas mais velhas. Então, o que a juventude tem a ver com isso? Com ajuda de um economista e uma socióloga, analisamos as transformações na sociedade caso as duas medidas colocadas pelo governo Temer sejam aprovadas.

Deseducação dos jovens

A “deseducação dos jovens” é uma “tragédia anunciada”, explicou o economista e professor da Unicamp Eduardo Fagnani, que é pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e do Trabalho e coordenador da rede Plataforma Política Social – Caminhos para o Desenvolvimento.

Ele explica que, com o tempo, os cortes na aposentadoria vão acabar afetando a renda das famílias brasileiras: “Hoje, 80% dos idosos contribuem com aposentadoria. Em décadas, este número vai diminuir”. Logo, os jovens vão precisar trabalhar para ajudar com as contas da casa, o que estava acontecendo cada vez menos. Ele diz:

“No período recente, a melhoria da renda das famílias [por conta da geração de empregos, da ampliação do salário mínimo e das transferências de renda da Seguridade Social] teve impactos positivos nos indicadores educacionais. As famílias puderam priorizar a escolarização dos seus filhos e netos, em vez do trabalho. Os jovens serão forçados a entrar no mercado de trabalho precocemente (16 anos ou menos) a partir do momento em que o efeito da reforma começar a ser sentido na renda das famílias, reduzida em função da subtração dos benefícios previdenciários e assistenciais.”

Eduardo Fragnani

Trabalho, mas que trabalho?

Aí vem o segundo problema: que mercado de trabalho estes jovens vão encontrar? Quem responde é a doutora em ciência política e mestre em sociologia Sonia Fleury, professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo, onde coordena o Programa de Estudos sobre a Esfera Pública:

“Com a reforma da previdência e a trabalhista, os jovens não poderão se aposentar nem conseguirão entrar logo no mercado de trabalho. Quando entrarem, serão contratos flexíveis, ou seja, impossível assegurar contribuições por tão longo período quanto as que precisarão ser feitas para poder se aposentar.”

Para quem não sabe, a reforma trabalhista aumenta os trabalhos “flexíveis”. Isso quer dizer: em vez de contratar funcionários pela CLT, empresas poderão pagar profissionais apenas para fazer trabalhos específicos, sem um salário mínimo o mês. O contrato temporário será prolongado (adeus, estabilidade) e é criada uma modalidade de trabalho “parcial”, por menos tempo e menos remuneração que o de tempo integral. Isso sem falar na terceirização, já aprovada, que permite que cada funcionário seja contratado como se fosse uma empresa – sem benefícios ou direitos.

sonia fleury

Tchau, aposentadoria

Isso quer dizer que, para os jovens que entram no mercado de trabalho, será cada vez mais difícil um contrato com todos os direitos trabalhistas, entre eles o recolhimento do FGTS, que dá direito à aposentadoria. Já deu para entender onde essa história chega, né?

O economista Eduardo Fagnani resume qual é o recado que as reformas passam para a população jovem do País: “Não estude e trabalhe até o fim da vida, sem se aposentar. É isso que quer dizer”.