A experiência de ser mulher, estudante e feminista

No 4º EME, mulheres de três gerações percebem que problemas relacionados ao machismo continuam quase os mesmos

“Em 2001, seria inimaginável um encontro apenas de mulheres no movimento secundarista”. O relato é da ex-presidenta da UBES, Carla Santos, que esteve à frente da entidade na virada do século. Carla foi uma das participantes da mesa “Meninas ocupando o Movimento Estudantil”, a atividade fez parte do cronograma do 4º Encontro de Mulheres Estudantes neste feriado da Independência.

A ex-presidenta relembrou sua trajetória como estudante secundarista, quando causou impacto no movimento estudantil ao aparecer nua em um protesto em Brasília. Na época, as fotos da manifestação tornaram-se destaque nos principais jornais do país.

Carla Santos, em 2001, protestando em Brasília contra a corrupção no governo FHC. Foto: Beto Barata I Folhapress.

Para ela, isso é resultado da hipersexualização do corpo da mulher: “O corpo feminino político incomoda até hoje, prova disso é o caso da deputada Manuela D’Ávila (PCdoB), que chocou parte dos brasileiros ao amamentar sua filha, Laura, em público, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Na mesa, as jovens feministas Bia Martins, do Movimento Olga Benário, Ana Clara, diretora de Mulheres da UNE, Emily Quimas, do Coletivo Feminismo ¾, Isabela Luzardo, diretora da UBES e Virgínia Barros, ex-presidenta da UNE, ouviam atentamente o depoimento e as histórias de Carla junto a dezenas de estudantes que acompanharam a discussão.

Machismo se aprende em casa

Em sua fala, Bia Martins aproveitou para comentar o estudo “Como é ser menina no Brasil?”. De acordo com a pesquisa, enquanto 76,8% das meninas lavam a louça e 65,6% limpam a casa, apenas 12,5% dos irmãos lavam a louça e 11,4% limpam a casa.

A carioca Bia Martins participando do 4º EME da UBES. Foto: Yngrid Manarina.

Apesar da triste realidade, os dados não assustam. O machismo se aprende em casa desde muito cedo e faz parte do pacote de imposições sociais feitas às meninas a partir do nascimento. Segundo Bia: “Foi difícil assumir para os meus pais que eu deixaria as tarefas domésticas para subir no carro de som e ocupar o movimento estudantil”.

Curso para menino e curso para menina

Quando Bia decidiu ingressar no ensino técnico cursando edificações também enfrentou dificuldades. “A sociedade não aceita garotas em profissões que requerem o mínimo de força ou exigem cálculo”. Virgínia, que presidiu a UNE entre 2013 e 2015 complementa:  “Nós sofremos machismo até na hora de escolher o que vamos estudar”.

A pernambucana Virgínia Barros foi a 5ª mulher a presidir a UNE. Foto: Yngrid Manarina.

Machismo se combate na escola

A estudante Emily combate o machismo diariamente na tradicional escola Pedro II, localizada no Rio de Janeiro. Em reuniões periódicas com as suas colegas, as meninas usam o tempo juntas para ouvir umas às outras.

Emily também atua ativamente na internet, contribuindo com a página Feminismo ¾ no Facebook. Criada há 7 anos, a página fortalece a rede feminista na comunidade escolar e denuncia casos de abusos na instituição: “Nossa missão é apoiar as estudantes que precisam da gente em um processo de acolhimento”, orgulhou-se.

Por Amanda Macedo, de São Paulo
Foto destaque: Yuri Salvador