7 Perguntas para Camila Lanes

A estudante paranaense esteve à frente do movimento secundarista nos últimos dois anos

A paranaense Camila Lanes esteve à frente do movimento secundarista nos últimos dois anos, quando a entidade enfrentou um dos mais graves momentos da democracia brasileira. Durante esse tempo, a diretoria da entidade percorreu todo o país, mobilizou a luta nas escolas, nas ruas, nas ocupações, resistiu ao golpe e ao desmonte da educação. Nesta entrevista, Camila fala sobre a responsabilidade de representar a juventude secundarista na UBES, sobre o aprendizado e o legado da sua geração. Leia abaixo:

1) Como definir essa gestão que se encerra no ano de 2017?
Acho que se há uma palavra para dizer o que foi, eu escolheria a palavra intensidade. O que os secundaristas viveram e estão vivendo nesses dois anos são desafios imensos e sentimentos à flor da pele. Uma mistura de coragem e ousadia, de medo e de ansiedade, alegrias, tristezas, tudo junto, sem muito tempo para respirar. Adrenalina mesmo. A responsabilidade de enfrentar o golpe, de ocupar as escolas, tudo isso foi um teste sem igual para a nossa entidade, que precisou se organizar como nunca, crescer politicamente como nunca, estruturalmente, fazer o necessário para representar essa luta. E acho que conseguimos. A UBES provou que o movimento estudantil secundarista é capaz de balançar esse país. Não somos 50 milhões a toa.

2) Quem é a Camila antes e depois da UBES?
Putz. Primeiro não quero dizer que haverá um depois da UBES. Mesmo sem estar na diretoria, eu quero continuar próxima da entidade apoiando de alguma forma, somando, durante a minha vida toda. Mas o que eu posso dizer é que eu entrei aqui achando que eu conhecia o Brasil e a juventude brasileira, mas ela é muito maior e mais encantadora do que eu imaginava. Aquela Camila que chegou aqui em 2015 não imaginava quanta galera foda existe no movimento secundarista do Acre, do Maranhão, quanta juventude incrível está fazendo luta em Mato Grosso, no Rio Grande do Norte, como é sensacional a geração de estudantes no sul, no nordeste, no sudeste, nas periferias, no campo. São pessoas que vão me inspirar pelo resto da minha vida, onde eu estiver, fazendo o que fizer. Tem muita gente jovem linda nesse país.

3) O que as ocupações das escolas representaram para você?
Quase um vício. Estou me sentindo com abstinência de ocupar. Vamos ocupar alguma coisa (risos)? Falando sério, foram muitos anos fora de casa, vivendo grande parte da vida em diferentes ocupações no país. Antes de ser eleita para UBES, eu vim de uma ocupação no ano de 2012, quando eu tinha 16 e me mudei para o acampamento em defesa da UPES (União Paranaense dos Estudantes Secundaristas). Posso dizer, portanto, que os anos mais importantes da minha adolescência eu passei nesse ambiente da construção coletiva das ocupações. Ali a gente aprende de tudo, a conviver, a respeitar, a dialogar, disputar politicamente dentro das regras, resistir. Como presidenta da entidade, conheci histórias fantásticas, ocupações na zona rural, nas capitais, também chorei e me abati com a repressão, as perseguições contra nós, a morte de estudantes. Foi tudo muito grande.

4) Você é de uma geração de meninas que foram as líderes desse movimento. A maioria das ocupações foram comandadas por mulheres. As meninas ocuparam finalmente seu espaço no movimento estudantil?
Eu tenho muito orgulho dessa geração. São mulheres muito novas e ao mesmo tempo preparadas para os maiores desafios, minas de luta, de cabeça erguida, que não nasceram para abaixar a cabeça diante do machismo. Isso também no movimento universitário, na pós-graduação, tanto é que, já há alguns anos, as três principais entidades estudantis, a UBES, a UNE (União Nacional dos Estudantes) e a ANPG (Associação Nacional dos Pós-Graduandos) são dirigidas por presidentas. No movimento secundarista, isso ficou muito claro no nosso último Encontro de Grêmios, quando atestamos que a maior parte dos grêmios no país é hoje dirigida por mulheres. Também no último Encontro de Mulheres Estudantes (EME), que reuniu mais de 1.500 lideranças femininas. Mas não dá para dizer que já ocupamos nosso espaço porque, infelizmente, a real é que ainda existe muito machismo no movimento estudantil. Somos silenciadas, objetificadas, violentadas e não é fácil se manter firme. A notícia é boa é o nível de organização das secundaristas, cada vez mais novas, querendo debater as questões de gênero na escola, participando de coletivos feministas, quebrando padrões. Essa é a nossa maior esperança. São meninas que ainda vão muito longe.

5) Como foi para você estudar sobre os golpes nos livros de história do Brasil e, pouco tempo depois, estar na rua lutando contra um de verdade?
Foi muito difícil enfrentar um momento de ruptura democrática. A gente sabe que, desde a Constituição de 1988, o Brasil seguiu de acordo com um pacto social, para manter de pé as nossas instituições, para garantir a diversidade de pensamento, o nosso crescimento político. Quando essas figuras tenebrosas como Aécio Neves, Michel Temer e Eduardo Cunha rasgam esse pacto, a gente lembrou na hora foi de tantos jovens, estudantes, meninas e meninos que morreram durante a ditadura militar, para combater uma ditadura e resgatar a democracia. Veio a imagem de Édson Luís, secundarista, de Helenira Rezende, Honestino Guimarães. Isso nos inspirou a ir para a rua e resistir. E vamos continuar resistindo porque os efeitos do golpe ainda não acabaram.

6) O Brasil vive realmente uma onda conservadora? Como ela te afeta?
Nós, do movimento estudantil temos sido atacados, intimidados nas redes sociais, por esses grupos conservadores, gente que apoia ditadura, gente que se auto-intitula Brasil Livre mas que de livre não tem nada, homofóbicos, lesbofóbicos, misóginos, racistas. Também estamos enfrentando retrocessos como o movimento da Escola Sem Partido e a lei da mordaça. Mas que eu posso dizer é: eles realmente existem na caixa de comentários da internet, mas não tem força nem representação na juventude. Os jovens, os estudantes secundaristas, não curtem conservadorismo, não curtem preconceito e discriminação, não querem volta da ditadura, não querem censura de obra de arte e nenhuma idiotice dessas. Acho que aqui, na escola, nos grêmios, nos institutos federais, nas ruas, sempre haverá muita resistência ao conservadorismo e a vontade de construir um outro futuro.

7) Para onde vai Camila Lanes agora?
Vou voltar para a minha casa, que é o Paraná, e continuar na luta. Vou ficar muito perto da juventude, dos movimentos sociais, de tudo isso que eu vivi na presidência dessa entidade e que mudou para sempre a minha vida. Precisamos resistir e vamos combater esse governo até que ele caia. Além disso, acabei de conseguir uma vaga na universidade, vou começar o meu curso e também vou me dedicar muito a isso, era um grande sonho meu e sinto que é uma nova etapa que será muito diferente também. Não vou longe não! Estou na área e serei eternamente grata à UBES por ter definido a minha vida. O coração aqui é secunda e continuará sendo. Muito amor e muita coragem pra gente daqui pra frente.

*Publicado originalmente na Revista de Gestão 2015-2017