UBES responde editorial do Estadão

O jornal O Estado de S.Paulo publicou, nesta quinta-feira (3/11/2016), um falacioso editorial sobre as ocupações dos secundaristas por todo o Brasil. O texto apresenta uma visão limitada e deturpada deste movimento que é legítimo e pacífico. O objetivo dos estudantes é barrar medidas que representam retrocessos para a Educação, como a “PEC do congelamento” (agora PEC 55 no Senado), a MP 746 de “deforma” do Ensino Médio e a Lei da Mordaça (ou Escola sem Partido).

A UBES, com quase 80 anos de história, é uma organização estudantil ampla, que respeita a participação dos mais diversos estudantes, sejam eles filiados a partidos políticos de diferentes pensamentos ou não. O que nos une é a luta contras as opressões e por uma Educação pública, gratuita e de qualidade.

UBES

Primeiro, é sempre bom lembrar que o Estado de S.Paulo é conhecido por apoiar os dois golpes contra a democracia recentes do país: o de 1964, seguido de um regime que torturou, perseguiu e assassinou jovens, e o de 2016, que usurpou os votos de 54 milhões de brasileiros e colocou no poder um presidente ilegítimo. Agora, o jornal quer ensinar aos estudantes que ocupam as escolas as regras mais elementares do “Estado de Direito”, da democracia. Parece uma piada de mau gosto.

O editorial, que soa em muitos momento arrogante, subestima a atuação dos estudantes ao afirmar que eles estão sendo manipulados por forças políticas. Como disse a secundarista paranaense Ana Júlia, e como afirma a UBES, este é um movimento autônomo, livre e comprometido com a Educação.

É importante frisar que a responsabilidade de realizar o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) compete ao Estado. Se houvesse vontade política, o MEC teria condições de realizar as provas em novos locais. Voltamos a reafirmar que o adiamento das provas de 191.494 estudantes, que representam apenas 2% dos 8,6 milhões dos inscritos, é uma tática para tentar deslegitimar as ocupações.

Em Minas Gerais, temos o exemplo do acordo dos estudantes com a Secretaria Estadual de Educação de Minas Gerais, o Ministério Público e deputados para que as escolas ocupadas neste estado pudessem receber o Enem com tranquilidade neste sábado (5/11) e domingo (6/11). Isso evidencia o fato dos estudantes estarem abertos ao diálogo.

Este editorial parece ter sido escrito por uma pessoa velha de espírito, que não consegue entender que os tais “adolescentes de 16 anos” podem ser tão empoderados e críticos quanto muitos adultos. Esta pessoa não compreende que as novas formas de comunicação ultrapassaram jornais como o centenário Estadão e hoje dão voz a outros personagens e não apenas aos interesses dos poderosos.

16 anos

O Estado de S.Paulo não entende (ou não quer entender) que a ocupação é sim uma forma de protesto legítima, pacífica e que tem apoio de grande parte da comunidade escolar, pais, professores e outros estudantes.

Para um jornal que apoia golpes, que sempre foi contra as greves dos trabalhadores, sempre está a criminalizar o direito garantido constitucionalmente da manifestação, entendemos que é difícil compreender um movimento novo e democrático, que se organiza em assembleias abertas aos estudantes, que tomam suas decisões coletivamente. Mas nós, diferente da arrogância caquética do senhor Estadão, convidamos os seus editores a visitar uma ocupação e, quem sabe, almoçar com a gente. Sim, os adolescentes sabem cozinhar.

O Estadão parece também ter problemas com dados, pois, se tivesse o trabalho de apurar, teria verificado que entre escolas, universidades e institutos federais, as ocupações chegaram a atingir os 1.500 estabelecimentos de ensino. Esta é a “minoria de invasores”, como escreve o triste editorial.

invasores
Afirmamos também que quem quer substituir a democracia não somos nós, que a defendemos com unhas e dentes, nas ruas, nas ocupações, nas mais diversas manifestações da juventude. Quem propõe esse malabarismo é o velho Estadão, que só gosta de democracia quando ela atende aos seus interesses.

Não nos ofenda, caro jornalão, ao nos chamar de invasores. Somos estudantes e ocupamos porque nos preocupamos com o nosso e o futuro das gerações que estão por vir.

Nós, secundaristas, não deixaremos de ter sonhos, e o romantismo e heroísmo como base de nossa luta. A nobreza, que vocês citam no texto, essa deixamos para os editores do Estadão, que já apoiam os aristocratas, mesmo sabendo que o “Rei está nu”.

nobreza

Para ler na íntegra o editorial d’O Estado de S. Paulo: 
http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,o-enem-e-as-escolas-ocupadas,10000086089