Relato de um triste dia em Brasília

Bombas de gás, violência policial e truculência contra estudantes e trabalhadores: Jornalista da UBES* relata o atentado da polícia durante o Ocupa Brasília

29 de novembro de 2016, Brasília, data da votação da PEC 55 no Senado Federal e também de mais um triste episódio que marcou o ano de 2016. Apesar da manifestação do povo contrário à medida, a Proposta de Emenda Constitucional que prevê o congelamento de investimentos do governo federal em áreas sociais, incluindo setores como saúde e educação, pelos próximos 20 anos, foi aprovada em primeiro turno.

Para barrar a PEC do fim do mundo, estudantes dos quatro cantos do país se organizaram em Caravanas rumo ao Distrito Federal no dia de ontem. Foram centenas de ônibus com secundaristas saindo de todos os estados Brasileiros, alguns desses jovens, inclusive, enfrentaram uma jornada de mais de 72 horas para chegar até o Congresso Nacional e manifestarem seu descontentamento. Um movimento que mobilizou milhares de pessoas e contabilizou cerca de 50 mil manifestantes.

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Manifestantes pedem pela retirada da PEC 55 e pelo Fora Temer durante manifestação. (Foto: Yuri Salvador)

Todos reunidos nas proximidades do Ministério da Educação, é hora de caminhar até o Congresso Nacional, subo no caminhão de som mais próximo para capturar algumas imagens, um mar de gente, jovens, mulheres, homens, crianças, idosos, que coisa mais linda de se ver. Milhares de pessoas empunhando cartazes, entoando canções e gritos clamam pela anulação da PEC 55. São vozes que ecoam por toda Brasília. Os manifestantes caminham até o gramado, alguns entram no espelho d’água. Quanta excitação! Estamos cheios de convicção, vamos barrar esse retrocesso.

Tudo pacífico, gramado tomado, felicidade que não cabe no peito. Nós, estudantes, juntos com os trabalhadores – o povo -, não deixaremos que algumas dezenas de senadores congelem nosso futuro!

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Estudantes dentro do espelho d’água em frente ao Congresso Nacional pedem pela anulação da PEC 55. (Foto: Yuri Salvador)

De repente, um grupo mínimo de militantes vinculados à tática black bloc tombam um carro da TV Record. O caos é instaurado. Policiais despreparados não controlam o pequeno grupo e lançam centenas de bombas de efeito moral no meio dos manifestantes. Muitas pessoas que não integravam o grupo, incluindo jovens menores de idade,  são alvos de bala de borracha e spray de pimenta. Correria, expressões de desespero, pessoas se atropelam, algumas ajudam as que caíram a se levantar, outras socorrem os feridos.

O pequeno grupo que poderia ter sido contido facilmente pelo enorme número de policiais que faziam um cordão em frente ao Congresso continua a enfrentar o policiamento, chutam bombas em todas as direções, acertam manifestantes já feridos e que nada tinham a ver com toda aquela violência, um coquetel molotov é atirado, o estopim. Cavalaria se prepara para atacar, tropas de choque batendo em seus escudos caminham em direção à manifestação já dispersa. Sem o devido preparo saem agredindo todos à sua frente, feridos, jovens, mulheres, crianças, não importa.

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Cavalaria se prepara para avançar em direção aos manifestantes. (Foto: Mídia NINJA)

São dois carros de som, um composto pela imprensa livre em sua maioria, o outro por lideranças estudantis e movimentos sociais que imploram por quietação e respeito, em vão. É nessa hora que viram alvo dos policias, que passam a mirar suas armas nos carros de som. Nós, da imprensa deitamos todos no chão. Uma bomba cai ali, um jornalista a empurra para fora do carro. Ambos os carros começam a andar na tentativa de proteger os que estavam à bordo. No caminho, pessoas machucadas são resgatadas, recebem água e algum tipo de auxílio para se acalmar.

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Estudantes visivelmente inconscientes recebem atendimento médico durante a repressão. (Foto: Débora Neves)

Na confusão, uma mãe se perdeu de seu filho. Nitidamente atordoada, se aproximou do carro de som para solicitar que promovessem um encontro entre eles. Durante a conversa ela passou mal, mais bombas eram lançadas contra os inocentes. Ela, desesperada sem informações do filho, estava ainda mais abalada, não sabíamos se era por conta do gás, pela ausência do filho ou ambos. Uma moça se aproxima e a conforta, lideranças gritam o nome do rapaz no carro de som enquanto solicitam que a polícia cessem com as bombas, nada do menino, nada da polícia recuar, mais e mais bombas.

Só é possível enxergar fumaça, o gás cega, faz queimar os olhos, falta de ar, como é possível respirar daquele jeito? Água, muita água, o carro de som se distancia do Congresso e da confusão. Agora, já é possível observar melhor o que acontece. Quanta crueldade, pra quê tanta violência?!

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Manifestantes fogem das bombas de gás que são arremessadas pela polícia. (Foto: Yuri Salvador)

Para se defenderem, os jovens derrubam banheiros químicos e fazem barricadas na tentativa de impedir a passagem da cavalaria que vinha a todo vapor em direção à multidão já dispersa. Todos que estavam no caminho sofriam com agressões e spray de pimenta.

Algumas pessoas tentam se reagrupar em frente à Catedral para receber atendimento médico, mas as bombas se aproximam, a fumaça toma conta de toda a paisagem e aquilo parece não ter fim. Todos buscam se afastar da fumaça, ambulâncias socorrem jovens inconscientes que são carregados por colegas, recebem atendimento. Já mais distante o rastro de tanta violência pode ser observado. O resultado de tudo: mais de 40 pessoas feridas e ao menos 11 pessoas detidas.

Pouco depois do ocorrido, tivemos conhecimento de uma foto que foi tirada de dentro do Congresso, durante a truculência que acontecia do lado de fora. Enquanto os parlamentares realizavam um coquetel regado a champanhe, milhares de pessoas eram feridas e violentadas fazendo nada mais do que defendendo os seus direitos.

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Coquetel dentro do Congresso Nacional enquanto repressão acontece do lado de fora. (Foto: Gisele Arthur)

Essa é a marca do governo ilegítimo e autoritário de Michel Temer: silenciar o povo e nos fazer engolir um plano de governo que não foi votado nas urnas. Mas, que fique claro que os estudantes e trabalhadores desse país não vão admitir que essa PEC destrua os nossos sonhos. Enquanto houver retrocessos, haverá resistência! #OcupaTudo

*Débora Neves, jornalista da Ubes, foi a Brasília cobrir as manifestações do Ocupa Brasília contra a PEC 55.