Símbolo de resistência no período da ditadura militar, Estadual Central prepara-se para integrar o 3º ENG da UBES

Para ir ao 3º ENG, os secundaristas do Grêmio Abre Alas têm realizado pedágios para arrecadar verbas que irão custear a viagem até Fortaleza

Com mais de um século de história, a Escola Estadual Governador Milton Campos, mais conhecida como Colégio Estadual Central, localizada na zona sul da cidade de Belo Horizonte, organiza-se para fazer parte do 3º Encontro Nacional de Grêmios e do 1º Encontro LGBT da UBES. O evento, que acontecerá em Fortaleza (CE) entre os dias 29 de janeiro e 1º de fevereiro, reunirá as lideranças estudantis de escolas de todo o Brasil.

“Nós iremos ao 3º ENG e estamos cheios de vontade de organizar tudo! Passamos por tanta coisa nas ocupações que queremos compartilhar quando encontrarmos diversos outros grêmios que traçam batalhas em todo Brasil. Esperamos um espaço onde possamos dialogar, trocar experiências. E para além disso, acreditamos que integrar o Encontro é parte importante de dar continuidade ao nosso histórico de lutas”, contou a presidenta do Grêmio Abre Alas e diretora da União Colegial de Minas Gerais (UCMG), Daniela Nunes de Moura.

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Á direita, presidenta do Grêmio Abre Alas, Daniela Nunes de Moura. Á esquerda, presidenta da União Colegial de Minas Gerais (UCMG), Késsia Teixeira.

Estudante e Diretora Social do Grêmio, Laura Lemos explica de que maneira os secundaristas têm se organizado para ir ao Encontro. “Já estamos nesse esquema do ENG há bastante tempo, estamos nos mobilizando. Fazemos pedágios para a arrecadação de verbas, nós vamos em praças, locais públicos e explicamos a ideia para conseguirmos os valores. Nós queremos entender como trazer novas experiências para dentro do Estadual Central a partir do evento da UBES”, enfatiza.

Histórico de lutas

Com um dos grêmios estudantis mais antigos e atuantes, o Estadual Central leva em sua história importantes conquistas alcançadas por meio da mobilização estudantil. Foi através de ações organizadas pelo Grêmio que em 2016, os secundaristas conquistaram a restauração da estrutura do colégio, que buscou preservar o projeto original, arquitetado por Oscar Niemeyer, em 1954.

Os frutos da luta estudantil puderam ser vistos, ainda, na construção de vestiários e laboratórios de química e ciências, além de melhorias na acessibilidade do espaço e da compra de um novo sistema de ar condicionado e som para o auditório do estabelecimento de ensino.

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Na época dessas conquistas, a então presidenta do Grêmio, Bruna Helena, enfatizou a força e a importância do movimento estudantil dentro das escolas para a construção de um ensino mais conectado à realidade da juventude brasileira. “Nós nos mobilizamos durante muito tempo e pressionamos o estado para a elaboração de um ensino público de qualidade para todos. Fizemos atos e paralisações e finalmente tivemos nossa conquista!”, comemorou.

A atual presidenta, Daniela Nunes de Moura explica que o Abre Alas é uma das maiores referências de luta para as escolas mineiras, já que atravessou o período da ditadura militar. Ela também esclarece como se dão os processos para as eleições das gestões do Grêmio que, atualmente, é composto por 11 diretores:

“A cada um ano, uma nova eleição é realizada e então uma nova gestão é formada. A gente passa nas salas de aula convidando as pessoas do primeiro ano, que acabaram de chegar na escola. Apresentamos o Grêmio, a frente do movimento negro, a frente feminista e a LGBT. Explicamos a função de cada uma dessas organizações e convidamos todos para participar das atividades! A partir do Grêmio, tudo é decidido democraticamente, através do debate e dos votos”, diz Daniela.

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Á direita, ex-presidenta do Grêmio Abre Alas, Bruna Helena.

Ex-presidenta do Abre Alas e ainda estudante do colégio, Bruna Helena pontua que a organização política dos estudantes ajudou a produzir um ambiente escolar mais aberto ao diálogo.

“O Grêmio vem para dentro das escolas e, para além das conquistas, ele estimula um debate político que há muito tempo não era realizado dentro do atual sistema de ensino. Ele ainda conscientiza pais, alunos e professores e os coloca num mesmo ciclo de pensamento, gerando sintonia” afirma.

O Grêmio e as Ocupações 

Completando quase três meses de ocupação, o Colégio Estadual Central é uma das escolas mineiras que têm somado ao movimento da Primavera Secundarista. No mês de outubro, a mobilização chegou ao ápice, quando mais de 1000 escolas foram ocupadas em todo Brasil contra a PEC 55 e a Medida Provisória de “deforma” do Ensino Médio.

A presidenta do Abre Alas relata que as atividades desenvolvidas pelo Grêmio ajudaram a construir a ocupação do colégio. “Dentro dos meus três meses iniciais de gestão, as minhas principais tarefas têm ligação com a ocupação. Realizamos coisas simples, como debates, rodas de conversa, fizemos o curso preparatório para o Enem, conquistamos a sala do grêmio, depois de muitos anos sem a escola liberá-la para as outras gestões. Foi ainda através da ocupação que desenvolvemos projetos culturais, como o cineclube, que ocorre com intervalo de 15 em 15 dias”.