Jovens mulheres do movimento estudantil disputam espaço nas Eleições 2016

Em entrevista à UBES, candidatas que vieram do movimento secundarista falam sobre o machismo e encabeçam a luta democrática por mais representação das mulheres na política

Os números chamam atenção para o problema da representatividade feminina no cenário eleitoral brasileiro: hoje, entre 10 candidatas em disputa, apenas três são mulheres. Para comentar sobre a trajetória dessas mulheres que vieram das lutas da juventude, o especial “Jovens na Política” apresenta o protagonismo e resistência de algumas jovens que se organizaram no movimento estudantil e chegam com força total nas disputas das Eleições 2016.

No Brasil, as mulheres são 52% do total de eleitores aptos para votar em 2016, mas essa porcentagem não está refletida na representatividade de candidatas nos municípios. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), apenas 32% de todas as candidaturas (prefeito, vice e vereador) para as eleições deste ano são de mulheres.

Em contrapartida, muitas jovens vindas do movimento estudantil entram na disputa eleitoral para renovar a política, como é o caso de Priscila Voigt, de 25 anos. A jovem começou seu trajeto de luta política no centro acadêmico de nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina, onde estudou até 2010. Depois de compor mobilizações contra a terceirização dos hospitais universitários no estado catarinense, participou de movimentos pelo direito à moradia e atualmente lança sua candidatura à vereadora, em Porto Alegre.

“Assim como todas as mulheres, já fui vítima de machismo; para combater a nossa exploração e opressão e realizar essa luta pela emancipação real da humanidade foi que tomei a decisão de me organizar no movimento de mulheres. O machismo que nos trata como analfabetas políticas é um desafio para mulher jovem na política. Romper com essa ideologia que perpetua nossa exploração e opressão é essencial para derrubar esse sistema. Não basta ser mulher, é preciso ter posição de classe e defender os interesses dos trabalhadores”, declara.

Em entrevista ao site da UBES, Priscila se posiciona na disputa eleitoral como representante nas lutas por moradia, por espaços de promoção de cultura nas periferias e contra o extermínio da juventude. “Por isso, defendemos mais investimentos para a educação pública, fortalecendo esse espaço, onde possa haver um amplo debate político e formação de jovens críticos, que compreendam sua realidade e que possam lutar para transformá-la”, afirmou Voigt, que é a favor da construção de creches públicas, espaços para acolhimento de mulheres vítimas de violência e passe-livre para estudantes e desempregados.

Sobre o índice de apenas 20% dos candidatos serem jovens, Priscila reafirma seu posicionamento por representatividade.

“É preciso que a juventude se organize e lute, como fizeram ocupando as escolas em todo o país, e que se organizem para lutar pela destruição desse sistema de exploração e pela edificação da sociedade socialista”, disse Priscila.

DAS OCUPAÇÕES PARA DISPUTA ELEITORAL

A Primavera Secundarista incendiou o Brasil em um capítulo especial de empoderamento das jovens estudantes, especialmente em São Paulo, onde mais de 213 escolas foram ocupadas contra o projeto de reorganização escolar imposto pelo governador Geraldo Alckmin. Em diversas ocupações, meninas organizavam as atividades, sustentavam o debate diário sobre a resistência do movimento para combater e denunciar o desmonte e sucateamento da educação pública paulista.

m 2016, foi nesse cenário de incessante protagonismo das estudantes que Angela Meyer, 21 anos, na presidência da União Paulista dos Estudantes Secundaristas (UPES), comandou diversas passeatas e ações nas escolas. A trajetória no movimento estudantil que começou aos 14 anos, quando presidiu o grêmio, contribuiu para que se organizasse nas entidades estudantis e integrasse importantes lutas, como a conquista do passe-livre no estado, em 2015.

“É muito raro ver jovens da minha idade sendo candidatos aos cargos públicos, mas todo mundo tem algo pra dizer sobre o que precisamos transformar na nossa cidade. Participar dessas lutas me mostraram a necessidade que a juventude tem em ocupar a política institucional também, acho que o maior aprendizado que as ocupações podem nos deixar é que a participação popular é fundamental”, comenta.

Sobre a questão do machismo, Angela aponta os desafios para enfrentar essa situação e o compromisso da juventude ao concorrer aos cargos públicos e preencher essa lacuna ao concorrer aos cargos públicos.

“Não é fácil ser uma candidata jovem e mulher, a estrutura eleitoral ainda é muito engessada, numa forma que só cabem homens (68%), brancos (51%) e de mais idade (55%, entre 40 e 59 anos). Existe quem olha torto e os machistas de plantão, mas a própria campanha é o principalmente instrumento de debate pra que consigamos conversar e conscientizar as pessoas sobre a necessidade de uma nova política”, explicou Angela.

Em sua campanha para o cargo de vereadora em São Paulo, assim como Priscila, a ex-presidenta da UPES defende implementação de projetos voltados para educação.  A criação do PROUNI municipal, expansão do passe-livre sem cotas para os estudantes, criação de vagas noturnas para as mães estudantes e trabalhadoras, criação de restaurantes populares próximos às grandes concentrações universitárias e a regulamentação dos estágios na cidade de São Paulo são apenas algumas propostas da estudante.

Apesar de ter encerrado sua gestão na UPES, Angela, que participou da ocupação da Assembleia Legislativa para denunciar e exigir a abertura de uma CPI para investigar o desvio de verbas da merenda escolar em São Paulo, permanece comparecendo às sessões da Casa e apoiando a luta dos estudantes e professores que têm debatido a possibilidade de greve na rede estadual de ensino.

A JUVENTUDE CONTRA O PROJETO ESCOLA SEM PARTIDO

O combate ao machismo e ao preconceito de gênero também mobiliza a atuação política das duas candidatas entrevistadas pelo site da UBES. Sobre o projeto Escola Sem Partido, que propõe eliminar o livre debate de questões como política, sexualidade e religião nas escolas, Angela é enfática. “Precisamos nos posicionar, a democracia está sendo desrespeitada, essa proposta de lei com certeza vai a esse encontro”.

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Priscila fala sobre a tentativa do governo golpista de amordaçar a juventude. “Eles sabem que somos uma força importante de transformação da sociedade. A ideologia da classe dominante já está presente nas escolas, são eles que contam a história, e querem ainda impedir o debate dentro do ambiente escolar que deveria justamente ser um espaço crítico”.

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