Há 10 anos, ‘pinguins’ marchavam no Chile. Entenda como isso mudou a educação

Estudantes apelidados de pinguins por causa do uniforme composto por terno e gravata protagonizaram as maiores marchas desde o fim da ditadura Pinochet, em 2006. Influência do movimento se faz sentir ainda hoje no Brasil

Há exatamente dez anos o Chile vivia a maior onda de protestos desde o fim da ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990). Estudantes secundaristas reivindicavam nas ruas gratuidade na educação e no transporte público, além de outras reformas profundas num sistema educacional herdado do regime militar.

Vestidos de terno e gravata – uniforme de muitos colégios públicos e privados do Chile ainda hoje – os estudantes foram apelidados de “pinguins” e a onda de protesto, de “revolta dos pinguins” ou “revolução dos pinguins”.

O nome “revolução” pode soar exagerado para um movimento que, dez anos depois, ainda patina em sua principal reivindicação: a gratuidade na educação. Desde 2006, sucessivas ondas de manifestações estudantis levaram adiante essa pauta, mas nenhuma delas conseguiu realmente alterar a ordem atual de um sistema que é diferente do brasileiro.

No Chile, além de possuir escolas públicas próprias, o governo também subvencionada o estudo de crianças e de jovens de menor renda em escolas privadas, mas os estudantes consideravam as vagas nesta modalidade insuficientes. Além disso, as universidades públicas também são pagas. Para conseguir cursá-las, as famílias chilenas recorrem a bolsas ou a créditos educacionais, que começam a ser pagos de volta ao Estado ou a bancos privados anos depois da formatura, configurando uma dívida que marca o início da vida profissional de milhares de cidadãos.

Influência nos estudantes do Brasil

O movimento chileno inspirou manifestações semelhantes anos depois, tanto na Argentina quanto no Brasil. Métodos de protesto – como a ocupação de escolas por parte dos próprios estudantes, organizados em comitês de limpeza, educação, segurança e alimentação, por exemplo – foram reproduzidos no Brasil, ao seu próprio modo, a partir de 2015.

O filósofo Pablo Ortellado, professor de Gestão de Políticas Públicas na Each (Escola de Artes, Ciências e Humanidades) da USP, disse que, no Brasil, “houve a distribuição de um manual no ano passado [2015]” com informações sobre métodos de mobilização estudantil e ocupação de escolas. “Foi com base nesse documento, traduzido pelo coletivo ‘O Mal Educado’ que se realizaram as primeiras ocupações por aqui”.

Além do manual, Ortellado se refere também à influência provocada nos estudantes brasileiros pela circulação de um documentário do cineasta Carlos Pronzato, chamado “La Rebelión Pinguina”.

Esse documentário não foi o único. Produtores chilenos esperam lançar em 2017 um filme de ficção inspirado na história real dos estudantes de 2006 chamado “A Ilha dos Pinguins”, que mostra uma visão mais pessoal das experiências transformadoras vividas por esses jovens numa adolescência marcada por debates políticos, amores, descobertas, frustrações e a violência dos protestos.

 

Diferenças com a experiência brasileira

As semelhanças entre os processos chileno e brasileiro está mais ligado aos métodos usados pelos estudantes do que aos resultados de longo prazo.

No Chile, uma das conquistas do movimento foi a eleição de líderes estudantis como Camila Vallejo, presidente da Fech (Federação dos Estudantes da Universidade do Chile), em 2010 e 2011, para o parlamento. Camila conquistou o cargo de deputada em 2013, se convertendo na mais jovem entre os 120 parlamentares do país. Além dela, outros líderes estudantis, como Giorgio Jackson, representante dos estudantes da Universidade Católica do Chile, também conquistaram mandato.

No Brasil, o movimento reivindica características de maior horizontalidade, sem indicar porta-vozes e representantes, evitando a ligação com partidos políticos e organizações estudantis tradicionais.

“Lá [no Chile] são organizações de estilo mais tradicional, no modelo da UNE [União Nacional dos Estudantes]. Aqui, é contra liderança, menos tradicional, mais horizontal”, diz Ortellado. Ele observa, entretanto, que experiências como a da Espanha, que viveu uma onda de protestos de organizações de modelo horizontal e anti-partidos em 2011, podem evoluir com o passar do tempo para estruturas mais formais de participação política. No caso espanhol, com a criação de um partido político como o Podemos.

Desdobramentos do movimento chileno hoje

O professor da Universidade do Chile, escritor e presidente da ONG Educação 2020, Mario Waissbluth, disse ao Nexo que essa “primeira explosão estudantil” depois da ditadura teve pautas “diversas e inorgânicas, como é comum nesse tipo de mobilização”.

Apesar dessa fragmentação, os resultados são mensuráveis. Ele menciona a aprovação de uma nova lei que aumenta as exigências para o ingresso na carreira de pedagogia, tornando a carreira mais atrativa, além de leis específicas para a melhoria de gestão das escolas públicas. Além disso, o governo impôs regras mais criteriosa para a autorização de novos cursos, “pondo fim à libertinagem de mercado iniciada por Pinochet”.

Waissbluth conta que os protestos dos secundaristas, iniciados em 2006 pelos “pinguins”, tiveram sua “explosão” mais forte em 2011, com os estudantes universitários, e segue tendo “réplicas” secundarias ainda hoje – numa analogia com os terremotos frequentes com os quais o Chile convive, e seus tremores secundários.

“A situação chilena é bastante paradoxal. Temos a maior cobertura da América Latina em educação média e superior. Os resultados do Pisa [sistema de medição de desempenho usado pelos países-membros da OCDE, bloco de 34 países dos quais o Chile faz parte] são os melhores da América Latina. Apesar disso, é um consolo ingrato, pois 45% dos que saem do ensino médio não entendem absolutamente nada do que lê ou operações aritméticas simples, especialmente entre os mais pobres”, explica Waissbluth, explicando os efeitos negativos que a desigualdade econômica tem também em relação ao acesso a um ensino de qualidade.

Fonte: Nexo Jornal.