EMICIDA SOLTA O VERBO CONTRA MICHEL TEMER, RACISMO E PROBLEMAS SOCIAIS

Emicida é mais do que um rapaz da periferia de São Paulo que ganhou o mundo. Emicida é essencial. E aqui não estamos falando só do seu inegável valor musical que vai muito além do universo do hip hop de onde ele surgiu. Estamos falando também das questões que ele levanta, do seu discurso afiado e contemporâneo e da vontade de colocar o foco da discussão onde realmente interessa. Emicida é o futuro, é a palavra certa na hora exata, é a voz que, quase sempre, falta aos artistas brasileiros, quase sempre, receosos de se comprometer com questões mais duras, mas urgentes. Prova disso foi a conversa que o site HT teve com ele, às vésperas de seu show no Circo Voador, no Rio, neste sábado, e do lançamento de seu novo clipe, “Madagascar”.

HT: Em recente entrevista ao site HT, Criolo desabafou sobre o preconceito que os pais dele, nordestinos e negros, ainda sofrem e afirmou que “Nossa sociedade equivocada nos testa todos os dias”.  De que forma você diria que a sociedade te testa?

E: A pobreza é um limitador que te empurra pra beirada do abismo. Testa sua capacidade de lidar com o mundo que te cerca de uma forma civilizada. Eu nem falo só de pobreza e miséria financeiras, a gente é cercado por muita pobreza de espirito também. Coisas que te fazem perder a fé, o que você chama de testes talvez sejam esses cemitérios de esperanças onde aprendemos a viver ou, como costumo dizer, esperar a morte, pois há uma diferença muito grande nas duas coisas. Tudo parece te impulsionar para a desistência, como se algo gritasse: ‘Desista também de você, porque o mundo já desistiu faz tempo’. Falamos disso na ‘Levanta e Anda’ : ‘Quem costuma vir de onde eu sou às vezes não tem motivos pra seguir’. Seguimos de teimosia, às vezes, só pra mostrar como a visão do asfalto sobre a favela é equivocada. A pior das expectativas sobre você, vinda de um desconhecido, é algo horrendo e assustadoramente comum em nossa vida. Quando se tem a pele escura então, nem se fala. E tudo isso é vergonhosamente atual.

HT: Na Virada Cultural você disse que não reconhece o governo Temer. De que forma você tem acompanhado o processo de impeachment e a sucessão de denúncias que atingem a toda a classe política brasileira?

E: Eu não tenho o hábito de acompanhar a política pela grande imprensa, a grande imprensa no Brasil faz parte do problema, não da solução. Eu leio um pouco sobre história, e quem estava roubando antes continua roubando hoje. Infelizmente não é nada que o brasileiro não saiba. Você precisa ser burro, mau caráter ou muito inocente pra esperar a salvação vinda de um cara que acabou de trair sua companheira de chapa.

HT: São muitos e recorrentes os casos de racismo que escutamos e presenciamos no Brasil a todo tempo. Você, aos 31 anos, acha que estamos evoluindo ou damos dois passos pra frente e um pra trás? Qual o problema do brasileiro que o torna ainda tão racista – mesmo que não admita isso?

E: É aquele ditado: o maior truque do diabo foi convencer o mundo de que ele não existia. O Brasil segue assim, porque não fala disso. Estoura um cano na sua casa e evita falar disso, evita tomar qualquer atitude para resolver. Aquilo vai alagando, alagando… quando você vê, já está prestes a ficar submerso. É a mesma coisa que acontece com um problema social: a cada vez que silenciamos, ele aumenta, e hoje estamos vendo tudo isso transbordar.

HT: Racismo, crise política, crise economica, estupro coletivo, machismo, violência crescente… O Brasil tem solução? 

E: Tem solução, mas é a longo, longuíssimo prazo, e precisa de diálogo. Sem empatia e diálogo não se resolve problema nenhum.

Via: Heloísa Tolipan com edição. Veja a matéria completa: http://www.heloisatolipan.com.br/musica/emicida-solta-o-verbo-contra-michel-temer-o-racismo-problemas-sociais-e-claro-fala-de-musica-amor-pela-mae-e-turne-internacional-vem/.