“É engano imaginar que um governo dividido, sem voto e que iniciou um ataque direto aos direitos populares vá ser capaz de conduzir em paz esse processo de crise”, diz cientista político

Armando Boito Jr., professor da Unicamp, fala ao site da UBES sobre a ruptura da democracia e o futuro do país neste cenário conturbado

Após o golpe de Estado, que colocou no poder um presidente eleito sem nenhum voto popular, o povo brasileiro tem construído um calendário nacional de lutas pela Democracia. O que acontece com o Brasil agora que Michel Temer – cujo índice de rejeição já chega aos 70% -, assume o governo?

O site da UBES entrevistou o cientista político e professor de Ciência Política da Unicamp, Armando Boito Jr., para falar sobre essa e outras questões acerca desse momento conturbado por que passa o país. Boito foi um dos especialistas presentes no 10º Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política, que aprovou em assembleia geral realizada na última quinta-feira (1º), uma moção de repúdio contra o afastamento definitivo da presidenta Dilma Rousseff. Leia aqui.

Boito desenvolve pesquisa sobre as relações de classe no capitalismo neoliberal no Brasil e na América Latina. É editor da revista Crítica Marxista e um dos fundadores do Centro de Estudos Marxistas (Cemarx) do IFCH-Unicamp. Pesquisou o sindicalismo e a política brasileira e, mais recentemente, tem pesquisado também na área de teoria política e marxismo. Doutor em Sociologia pela USP e pós-doutor pela Fondation Nationale des Sciences Politiques (FNSP, Paris).

UBES: Como o sr. avalia a condução do processo de impeachment da presidente Dilma?

ARMANDO BOITO: Foi um golpe parlamentar visando a restaurar o neoliberalismo puro e duro. O rito processual do impeachment, formal e aparentemente, foi correto, o que ocultou, para alguns, o fato de que não havia crime de responsabilidade. Mas o motivo real não foram os alegados decretos suplementares e sim colocar no poder uma equipe governamental neoliberal para mudar a política econômica, social, externa e cultural que vinha sendo implementada pelo governo de Lula e Dilma nos últimos anos. Foi uma ofensiva restauradora, visando a nos levar de volta para os anos 90 do século passado. Aqueles que diziam que os governos deram a mesma coisa que os governos de FHC, estão bem confusos diante dessa situação. Se era tudo igual, como explicar a crise e o golpe?

Os governos petistas vinham implementando uma política econômica que visava a estimular o crescimento por intermédio da intervenção do Estado na economia, isto é, uma política neodesenvolvimentista. Vinha, também, no plano da política social, promovendo uma pequena distribuição de renda. Na política externa, o governo nos últimos anos procurara, com êxito, obter maior margem de manobra para o Estado brasileiro, afastaram-se da política externa dos EUA e se aproximaram dos países da África e da América Latina. Os governos de esquerda da América Latina, estou pensando na Bolívia, Equador, Venezuela e Cuba tiveram no Estado e na economia brasileira uma retaguarda de apoio nesse período.

As mulheres, os negros e as minorias sexuais tiveram algumas de suas demandas contempladas por esses governos. O governo Temer pretende revogar tudo isso. Na política econômica, querem implantar o Estado mínimo para os trabalhadores e máximo para os capitalistas; na política social, querem suprimir direitos trabalhistas e previdenciários; na política externa, já estão reimplantando o alinhamento passivo com os EUA e o entreguismo. Na política cultural, querem retirar direitos das mulheres, dos negros e as minorias sexuais. É uma política conservadora em todas as linhas.

UBES: Após a notícia da cassação de Dilma, diversos atos tomaram as ruas do país. Para os próximos dias já há outros atos marcados. Será que vamos reviver junho de 2013 em 2016?

AB: O ato de domingo (4), em São Paulo foi muito animador. Até aqui, as manifestações populares, embora crescentes, estavam, digamos assim, abaixo das necessidades. Domingo foi mais animador. Temos um trunfo e uma debilidade a considerar. O trunfo é que o governo Temer está dividido. O PSDB e o DEM estão cada vez mais atritados com o PMDB. Esse último não é o partido orgânico do neoliberalismo, é um partido fisiológico, e acontece que foi a ele que coube assumir o governo. O PSDB teme perder muito espaço na política nacional. Essa divisão pode nos favorecer. O governo Temer terá dificuldades para avançar.

A debilidade que eu queria citar é a quase ausência do sindicalismo na luta contra o golpe e, agora, contra o governo Temer. Quem lutou até aqui foi o movimento popular, não o movimento sindical. Esse colaborou com a luta, mas não participou significativamente. Os grandes sindicatos estão fora do processo. Isso precisa mudar. Como estão para vir, segundo proclamações de Temer, a reforma trabalhista e a reforma previdenciária, pode ser que o sindicalismo comece a se mover e venha a fortalecer a luta pelo fim desse governo e por novas eleições.

Será preciso levar às ruas tanta gente como em 2013, mas, ao contrário de 2013, é preciso ir para as ruas de forma organizada, com partidos, sindicatos e movimentos, lutando por objetivos claramente definidos. O culto do espontaneísmo, que prevaleceu em 2013, só facilitou a tarefa da direita e da mídia de confiscar a revolta popular servindo-se dela para o objetivo de colocar novamente os neoliberais no poder.

UBES: Qual futuro do país nesse ambiente pós-golpe?

AB: O governo Dilma acabou, mas a crise política ainda está em curso. Entrou numa fase nova. É engano imaginar que um governo dividido, sem voto e que iniciou um ataque direto aos interesses e direitos populares vá ser capaz de conduzir em paz esse processo. Os conflitos devem se acirrar. A recusa do sistema político deve crescer. Está na hora de, além de lutar para depor Temer e realizar novas eleições, começar a discutir e propagandear a palavra-de-ordem da Constituinte. Eles desidrataram a democracia. Agora, todo resultado eleitoral estará pendente quando vencer, no município, no Estado ou na União, um candidato de esquerda ou mesmo de centro-esquerda, como foi o caso de Dilma. Precisamos mais que nunca de uma Constituinte.

UBES: Qual o papel dos estudantes e dos movimentos sociais neste momento político que se inicia pós-impeachment da Dilma?

AB: O reformismo dos governos de Lula e Dilma, que foi, de fato, um reformismo fraco, mas reformismo apesar de tudo, tocou diretamente a universidade. Foram feitos vários programas que facilitaram o acesso dos jovens de famílias mais pobres ao ensino universitário – Prouni, Reuni, Fies e, principalmente, quotas raciais e sociais. Os estudantes que provem de famílias abastadas, muito presentes na USP, na Unicamp, e em outras grandes universidades, não têm porque comemorar esses programas. Podem organizar tendências do movimento estudantil que, ultraesquerdistas, sempre pregaram que os governos do PT e do PSDB eram a mesma coisa. Porém, as tendências do movimento estudantil, preocupadas com a grande massa de estudantes provenientes de famílias de baixa renda, essas lutaram contra o golpe, tiveram um papel muito importante nesse processo, e hoje devem, no meu modo de ver, priorizar a luta pelo fim do governo Temer e por eleições já.