A quebrada não vai pagar pela crise!

Reportagem da UBES acompanhou um dia na ocupação da Fábrica de Cultura, localizada no coração do Capão Redondo

É quarta-feira à tarde. Trem, metrô e ônibus, foram quase três horas de viagem da redação da UBES, no bairro da Vila Mariana, até o nosso destino. Estamos no coração do Capão Redondo, bairro periférico, localizado no extremo Sul da cidade de São Paulo. Nosso destino é a Fábrica de Cultura, ocupada por secundaristas há exatos 45 dias.

Enquanto caminhávamos até o endereço final, crianças jogavam bola na rua e vizinhos conversavam no portão de suas casas. Curiosos, todos pararam suas atividades rotineiras enquanto os olhares se voltavam para nós. Um grupo de jovens que estavam sentados na calçada em frente ao prédio que visitaríamos se levanta e erguem seus pescoços para poder observar melhor quem são as estranhas que se aproximam.

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Secundaristas e moradores do Capão Redondo saindo da Fábrica de Cultura, após participarem de algumas atividades.

Sanando a curiosidade das pessoas e em busca de informações caminhamos em direção ao grupo de estudantes que nos observavam com entusiasmo. Após nos apresentarmos como repórteres do movimento estudantil, começaram a contar detalhes sobre a ocupação. “Antes de entrarem é muito importante que vocês tirem foto dessa faixa que representa nosso apoio aos educadores, por favor,” sugeriu um dos jovens.

Fomos bem recepcionadas por um dos secundaristas, que se levanta do meio-fio da calçada onde sentava e se oferece para nos guiar para dentro das instalações da ocupação. Walbert é morador do bairro do Capão e aprendiz da Fábrica de Cultura. “Estou aqui desde o primeiro dia de ocupação e venho dormindo e ajudando o pessoal nas atividades desde então”, relata com orgulho.

Ao entrar no ambiente, observamos um grupo de cinco secundaristas sentados à direita, eles se apresentam como o “GT da recepção”, são responsáveis por controlar quem passa pelo local por certo período, que se organiza por turnos. Os GTs são grupos nos quais os estudantes se separam, totalizando cinco equipes divididas entre: segurança, recepção, limpeza, comunicação e alimentação.

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Walbert Justiniano, estudante e ocupante do prédio arrumando cartazes que estão na fachada da Fábrica de Cultura.

Mais à frente nota-se uma mesa com linhas, varetas, colas e folhas de seda, onde acontecia há pouco uma oficina de pipas. Prestativo, o garoto Walbert Justiniano chama nossa atenção para um mutirão de concerto que acontece logo à frente e continua explicando os motivos que levaram à ocupação. “Houve redução do horário de funcionamento da biblioteca sem que nós fossemos consultados, demissões em massa desde funcionários da limpeza até do nossos arte educadores, além das reformas que nunca foram finalizadas”, explica.

Aproveito o momento para fotografar os meninos que participam do mutirão. Com ferramentas em mãos, eles consertam as dobradiças de uma das portas do andar térreo. Tímidos, falam pouco. “Estamos nos ajudando muito aqui e buscando melhorar ainda mais esse espaço para todos”, conta um deles.

Mais a frente notamos lindos grafites aparentemente feitos há pouco tempo. O menino Walbert se ausenta para resolver as tarefas que serão organizadas naquele dia, aproveitamos para olhar os grafites mais de perto. Duas secundaristas Nicole Kelly, 14, e Rebeca da Silva, 15 relatam com animação sobre como as coisas mudaram para melhor desde que os próprios estudantes passaram a ocupar o espaço.

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Secundaristas arrumam dobradiças de porta que estava danificada no prédio.

“Diversos espaços que antes eram fechados agora não são mais, temos liberdade para criar e estamos contando com a ajuda da comunidade para realizar atividades que vão ao encontro com a realidade da gente. Fazemos oficinas de grafite, de dança, música e rodas de conversas com nossos educadores e convidados, até mesmo o Mano Brown já veio aqui duas vezes acompanhar nossa ocupação”, relata Rebeca.

Encantadas com os relatos das meninas, solicitamos a elas que nos levassem para conhecer os espaços da Fábrica, elas pedem licença e vão consultar em assembleia nosso pedido. Autorizadas, começamos o tour. O prédio tem 8 andares, divididos entre recepção, biblioteca, refeitório, gerência, camarins, sala de artes visuais, dança, teatro, circo, música e linguagens.

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Na sala de música, estudantes realizam atividades normalmente.

Nosso destino é o subsolo, onde há um palco de teatro, caminhamos pelos espaços dos bastidores onde acontecem as produções. “Mais da metade desses equipamentos são novos, a POIESIS não permite que utilizemos. Até mesmo esse espaço é pouco utilizado. Com a ocupação, pudemos conhecer todos os espaços que temos disponíveis, antes isso não era permitido”, conta Nicole.

POIESIS significa Instituto de Apoio à Cultura, à Língua e à Literatura, é o órgão responsável por administrar as Fábricas de Cultura que existem em São Paulo. São cinco no total, todas localizadas em bairros periféricos da capital. Os estudantes contam que a instituição estava sendo má administrada, não acontece investimento há um bom tempo, alguns espaços estão com problemas nas estruturas, houve demissão de funcionários e educadores. “Parte do teto caiu, reduziram o período que a biblioteca ficava aberta por conta do que eles chamam de redução de funcionários”, expõe um estudante.

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À esquerda Rebeca da Silva, 15 e à direita Nicole Kelly, 14, secundaristas que conduziram a reportagem da UBES pela Fábrica.

Durante a visita pela Fábrica, pudemos observar aulas de dança, circo, música, e diversas oficinas acontecendo normalmente. “Nossa ocupação não é uma baderna, aqui é todo mundo unido e tudo é decidido em conjunto. Funcionários da POIESIS duvidaram da gente e disseram que a ocupação não duraria nem uma semana, mas estamos recebendo muito apoio, inclusive se não fosse pelas doações que estamos recebendo nem comeríamos”, conta Rebeca.

Os secundaristas explicam que os estudantes dialogaram com a POIESIS por meio de carta, para que chegassem a um acordo. Mas, o Instituto se comprometeu a atender as reivindicações somente quando os estudantes desocupassem o prédio. “Ocupação é sinônimo de mudança e enquanto não mudar não vamos desocupar. Queremos a periferia cada vez mais engajada e lutando por uma educação de qualidade” declara Walbert.

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Reivindicações que levaram os aprendizes a ocuparem o prédio há 45 dias.

Por Débora Neves.