A periferia resiste! No Capão Redondo (SP), a 1ª Fábrica de Cultura ocupada completa 43 dias de mobilização

Organizados, jovens lutam pelo direito da comunidade de ter acesso à cultura e ao conhecimento

Há 43  dias, aprendizes da Fábrica de Cultura do Capão Redondo, distrito localizado na região sudoeste do estado de São Paulo, ocupam o prédio numa luta organizada pelo reconhecimento da cultura de periferia e pelo direito à um ensino de qualidade. Ações autoritárias por parte do Instituto de Apoio à Cultura, à Língua e à Literatura (Poiesis), são alguns dos outros motivos que impulsionam o protesto da garotada no Capão.

No dia 5 de maio, com cerca de 200 pessoas, foi realizada a Primeira Assembleia Geral de Aprendizes, que questionava as intervenções da Poiesis no local, dentre elas, reduzir o horário de funcionamento da biblioteca sem consultar os estudantes, além de vetar a realização de um projeto levantado pelos arte-educadores. A infraestrutura do prédio, demissões em massa, a precariedade das refeições ofertadas e as reformas que nunca foram finalizadas são outros pontos levantados durante a ocupação.

As imposições da Poiesis limitavam até mesmo a livre circulação dos estudantes no prédio e a distribuição do material destinado às aulas. Após a ocupação, houve uma maior inclusão da comunidade, que tem apoiado o movimento, e salas que armazenavam grandes quantidades de materiais que poderiam ser utilizados pelos aprendizes foram descobertas nesse processo.

Atualmente, são cinco Fábricas espalhadas por todo o estado de São Paulo, que, em teoria, deveriam promover acesso gratuito para as comunidades nas mais diferentes atividades artísticas, bem como programação cultural. O projeto foi desenvolvido pela Secretaria da Cultura do Governo do Estado de São Paulo e é financiado pela Poiesis, organização social terceirizada. As Fábricas de Cultura oferecem ateliês como danças urbanas, contemporâneas, práticas de banda, sopro, capoeira, projeto de espetáculo, dentre outros.

Rebeca da Silva,14, integra a manifestação desde o início. Ela indica um dos maiores problemas existentes entre  os aprendizes e a organização que coordena o local.  “Todas as Fábricas irão apresentar Dom Quixote, só que nós temos de criar um novo roteiro e não queremos que uma pessoa que venha de cima, diga: vocês irão apresentar isso para mostrarmos o ensino que vocês têm aqui! Nós queremos algo do Capão, algo nosso, queremos transmitir a nossa imagem e não a imagem que eles querem que a gente tenha! ”, explica a jovem.

802207438_107763_1626477443181686604

À esquerda Rebeca com a amiga Nicole. Durante ocupação, aprendizes têm realizado intervenções artísticas no prédio.

Colega de Rebeca, Nicole da Silva,15, também participa do protesto. Ela comenta que os cursos continuam ocorrendo, já que todos ali têm se organizado para que os ateliês prossigam. Há, ainda, grupos determinados para limpeza, alimentação, recepção, segurança e etc.  Juntas, elas contam  que os pais de ambas apoiam a participação das filhas.

Ações na comunidade, reparos da estrutura do local, debates e eventos são promovidos cotidianamente pelos manifestantes. Tudo o que realizam é organizado e discutido previamente em assembleias. Na última quarta-feira (06), uma reunião foi marcada para dialogar com a comunidade e apresentar de modo mais claro, os reais motivos pelos quais o prédio está ocupado.

Ainda que a Fábrica esteja ocupada, os cursos seguem ocorrendo com o auxílio dos aprendizes.

Saiba mais sobre o movimento aqui

INVASÃO NA FÁBRICA DA BRASILÂNDIA

No último sábado (02), a Polícia Militar invadiu a Fábrica de Cultura da Vila Brasilândia, situada na zona norte de São Paulo. O local estava ocupado por aprendizes desde a sexta-feira (01), que protestavam contra cortes e demissões de funcionários. A PM, que não portava mandato judicial para adentrar, deteve arbitrariamente cerca de 20 pessoas, que lutavam contra o sucateamento do ensino na Fábrica.

Por: Jéssica Moraes