A luta dos estudantes chilenos contra as heranças malditas de Pinochet

Presente ao 41o Conubes, a líder secundarista Barbara Navarrete fala sobre as novas lutas do movimento estudantil do Chile

O tamanho e organicidade do 41o Congresso da UBES chamaram a atenção de Barbara Daniela Navarrete Antinao, estudante secundarista de 19 anos, que veio para Brasília participar do encontro estudantil. “A quantidade de estudantes que se encontram aqui é inviável para uma organização secundarista chilena”, observa.

Barbara é uma emergente liderança política no importante movimento estudantil chileno, que nos últimos anos chamou a atenção do país e do mundo ao mobilizar secundaristas e universitários em tornou do direito à educação.

Destas manifestações surgiram figuras emblemáticas, como a jovem Camila Vallejo, que hoje ocupa uma cadeira no Parlamento chileno. Bárbara destaca a importância da eleição da “bancada estudantil” no esforço do país em se livrar das heranças malditas da ditadura militar, que aterrorizou o país por 17 anos sob o comando do general Augusto Pinochet.

Na entrevista abaixo, a estudante da principal escola pública de Santiago — o Liceo Carmela Carvajal de Prat —, secretária-geral da Coordenação Nacional dos Estudantes Secundários (Cones) e militante da Juventude Comunista de Chile  fala sobre o cenário político do seu país e as similaridades com o Brasil.

Qual é a principal luta dos estudantes atualmente no Chile?

Há uma semana, avançou no Parlamento o projeto de Nova Educação Pública, que determina que as escolas públicos retornem ao governo federal. Hoje em dia, as escolas são municipalizadas — são aproximadamente 365 municípios no Chile. Com a lei, a educação voltaria para as mãos do governo federal num projeto que retomaria um projeto nacional de ensino da juventude.

Quando a educação foi municipalizada?

Em 1981, a educação passou para as mãos dos municípios durante o governo Pinochet, uma das últimas reformas estruturais da ditadura militar. Essa medida aprofundou as diferenças que há na educação chilena. Isso também acontece com a saúde, que está entregue aos municípios e à iniciativa privada. A municipalização foi confrontada pelos secundaristas desde o início e hoje comemoramos alegremente a aprovação da federalização das escolas públicas.

O movimento estudantil teve importantes momentos no passado recente, como a “Revolução dos Pinguins”. Como está essa mobilização no país?

O movimento estudantil teve distintos nomes em suas explosões públicas no passado. Assim foi em 2001, com o “mochilaço”, quando estavam querendo privatizar o cartão estudantil, que reduz a tarifa no transporte público para estudantes. Em 2006, aconteceu a “Revolução dos Pinguins”, que teve esse nome por causa do uniforme dos secundaristas. Essa mobilização ocorreu por causa da lei orgânica da educação, a última emitida por Pinochet, que permite a abertura de escolas privadas sem uma orientação pedagógica correta. E em 2011, há uma nova Revolução dos Pinguins, que mobiliza diversos outros movimentos sociais, estudantes secundários e universitários e professores, que lutavam pelo reconhecimento da educação como um direito social.

Dessas manifestações de 2011, surgiram importantes lideranças, como Camila Vallejo, que entraram para a política institucional. Como é a atuação dessas pessoas na política?

A eleição de Camila Vallejo e outros estudantes para o Parlamento chileno formou o que se chama de “bancada estudantil” e aproximou a Casa da realidade dos cidadãos, porém isso é apenas um pequeno ponto. Há muito que avançar, pois este Parlamento foi eleito por um modelo político atrasado e antidemocrático. O Parlamento segue sendo ilegítimo e pouco representativo da realidade política do país. Por exemplo, não há nenhum membro indígena, apesar de existir uma importante população nativa no país. Por isso, desejamos instalar uma Assembleia Constituinte para escrever uma nova Constituição e nos livrar das heranças da ditadura militar.

O que você tem achado do Congresso da UBES e do Brasil?

Há muitas semelhanças entre o processo que estamos vivendo no Chile, onde também há um governo em disputa, um processo de mobilização dos estudantes e dos movimentos sociais. Me sinto muito honrada de participar do Congresso da UBES, principalmente pela capacidade orgânica que tem a UBES. A quantidade de estudantes que se encontram aqui é inviável para uma organização secundarista chilena. Esperamos que este espaço seja exemplo para outros países latinoamericanos, principalmente porque é fundamental que os jovens tenham a capacidade de empoderamento e possam se relacionar com os estudantes de todo o continente.

Como está a situação política atualmente no Chile?

Vivemos atualmente um governo de ampla coalizão, formado por partidos de esquerda, como os partidos comunista e socialista, como também de centro, que inclui uma parte da direita do espectro político. Portanto, é um governo de constante disputa e muita tensão, mas também de avanços. A juventude e os movimentos sociais estão muito unidos e pressionando o governo para que avance nas políticas sociais e vejo que estamos muito mais maduros que no passado para enfrentar este momento. Há bastante esperança nesse processo, mas há também muita disputa. E seguimos empurrando o governo.